Economia

O fim das regras do metano: o que muda para o bolso da indústria?

Poço de petróleo marginal vazando metano, infraestrutura envelhecida em área rural
Poços marginais de petróleo e gás são responsáveis por metade das emissões de metano do setor.

O governo Trump acaba de propor o desmonte das principais barreiras federais contra vazamentos de metano na produção de petróleo e gás. A medida atinge diretamente a regra que obrigava o monitoramento de centenas de milhares de poços de baixa produtividade — responsáveis por metade da poluição do setor.

Mas a economia bilionária prometida para as operadoras esconde um cálculo de risco que investidores e gestores não podem ignorar.

O alvo: poços marginais e o “superpoluente”

A EPA (Agência de Proteção Ambiental) mirou nas instalações classificadas como “marginais”: poços que produzem 15 barris de óleo equivalente por dia ou menos. Em 2024, eles somavam três quartos dos mais de 900 mil poços ativos nos EUA.

Apesar de responderem por apenas 7% da produção nacional, esses ativos geram cerca de 50% das emissões de metano da indústria. O gás retém 80 vezes mais calor que o CO₂ no curto prazo, o que torna seu controle a alavanca mais rápida para frear o aquecimento.

A conta apresentada pelo governo

O administrador da EPA, Lee Zeldin, estima que a flexibilização poupará US$ 45 bilhões (aproximadamente R$ 240 bilhões) para o setor até 2050. O argumento central é a sobrevivência de pequenos produtores independentes, que alegam custos inviáveis para adequar poços de fim de vida.

Em contrapartida, a agência propõe:

  • Encerrar o Programa de Superemissores, que usava satélites de terceiros para flagar vazamentos gigantes;
  • Revogar a obrigação de capturar e vender gás associado, permitindo a queima em flare (que gera CO₂);
  • Estender prazos e reduzir a frequência de inspeções de vazamentos.

O racha dentro da própria indústria

Nem todo o setor comemora. Grandes petroleiras — que já investiram pesado em sensores, drones e tecnologia de captura — veem a volta da queima e do vazamento como um retrocesso competitivo. Elas argumentam que regras claras evitam o “farol regulatório” e protegem o acesso a mercados com exigências climáticas rígidas, como a Europa.

Já as operadoras menores independentes pressionaram pelo afrouxamento, alegando que a regra de Biden forçaria o fechamento puro e simples de ativos marginais, destruindo empregos locais.

Riscos jurídicos e de mercado à espreita

A proposta entra em consulta pública por 45 dias antes de virar regra final. O histórico recente mostra que ONGs e estados democratas devem judicializar o processo, o que pode travar a implementação por anos — criando incerteza regulatória justamente para quem mais precisa de previsibilidade: o pequeno produtor.

Além disso, a revogação do monitoramento por satélite tira do radar a capacidade de detectar “superemissores” em tempo real. Estudos mostram que eventos esporádicos de grande magnitude respondem por parcela desproporcional do total vazado. Sem o olho no céu, o passivo ambiental oculto cresce.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o impacto real no seu portfólio ou decisão de negócio: o cronograma das ações judiciais (que pode manter as regras antigas valendo na prática), a adesão voluntária das majors a padrões mais duros (pelo prêmio de mercado do gás “certificado”) e a pressão de compradores industriais por cadeias de fornecimento de baixo carbono. O fim da regra federal não encerra o custo do metano — apenas transfere a conta do balanço regulatório para o balanço de reputação e acesso a capital.