Meio Ambiente

Trump flexibiliza regras de metano: o que muda para o setor de óleo e gás e por que isso importa agora

Donald Trump discursa em comício no Texas ao fundo de poços de petróleo, anúncio de flexibilização de regras de metano
Trump anuncia afrouxamento de regras de metano em comício no Texas, maior produtor de petróleo dos EUA

O governo Donald Trump anunciou nesta terça-feira (27) um plano para afrouxar as exigências federais que obrigavam petroleiras a conter vazamentos de metano — gás com poder de aquecimento 80 vezes superior ao do CO₂ no curto prazo. A medida atinge diretamente centenas de milhares de poços de baixa produção e pode redefinir a economia da indústria fóssil nos EUA.

O anúncio ocorreu em um comício no Texas, estado que concentra a maior produção petrolífera do país. Mas os reflexos vão além da política eleitoral: envolvem custos operacionais, pressão climática internacional e a disputa tecnológica entre grandes e pequenas operadoras.

O que está em jogo: metano, poços marginais e a conta de US$ 45 bi

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) propõe aliviar as regras para poços classificados como “marginais” — aqueles que produzem 15 barris de óleo equivalente por dia ou menos. Em 2024, esses ativos somavam cerca de três quartos dos mais de 900 mil poços ativos nos Estados Unidos.

Apesar de responderem por apenas 7% da produção total, estudos da própria agência indicam que esses poços geram aproximadamente metade das emissões de metano do setor. A conta apresentada pelo administrador Lee Zeldin: a flexibilização pouparia à indústria US$ 45 bilhões (R$ 240,69 bilhões) até 2050.

“A EPA de Biden atacou de forma destrutiva o coração pulsante da economia americana”, declarou Zeldin. A retórica mira o eleitorado do Texas, onde o republicano Ken Paxton disputa vaga no Senado em meio a pesquisas desfavoráveis.

Por que as grandes petroleiras não comemoram — e as pequenas, sim

O racha no setor é nítido. Grandes empresas (Exxon, Chevron, Shell) já investiram pesado em sensores, satélites e sistemas de captura. Para elas, regras claras criam previsibilidade e evitam concorrência desleal de quem polui mais barato.

Já operadoras independentes e de menor porte argumentam que o custo de monitoramento e reparo em poços de fim de vida torna a operação inviável. Elas afirmam que a alternativa real é o fechamento de ativos — o que reduziria a oferta doméstica e, em tese, elevaria preços ao consumidor.

  • Poços marginais: ≤ 15 barris/dia — 75% do total de poços, 7% da produção, ~50% das emissões de metano
  • Economia estimada pela EPA: US$ 45 bi até 2050
  • Poder de aquecimento do metano (curto prazo): 80x o CO₂
  • Participação no aquecimento desde a Revolução Industrial: ~1/3

O fim do programa de “superemissores” e a volta da queima em flare

Além de flexibilizar o monitoramento em poços marginais, a EPA propõe encerrar o Programa de Superemissores de Metano. A iniciativa permitiria que terceiros — inclusive ONGs e empresas de satélite — detectassem e reportassem vazamentos de grande porte em tempo real.

Produtores reclamavam que o programa entregava poder regulatório a grupos ambientalistas. Críticos respondem que a vigilância independente é a única forma de garantir transparência em uma indústria que, historicamente, subnotifica emissões.

Outra mudança: a revogação da regra que exigia captura e venda do gás associado à extração de petróleo. Com isso, a queima em flare (flare burning) volta a ser opção permitida — transformando metano em CO₂, mas eliminando a obrigação de comercializar o gás.

O argumento do “desperdício absurdo” e os poluentes invisíveis

Grupos ambientalistas destacam um ponto frequentemente ignorado: metano vazado é produto perdido. “O setor está deixando escapar justamente o que vende”, resume David Doniger, do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

Além do metano, as regras de Biden miravam compostos orgânicos voláteis (formadores de smog) e benzeno (cancerígeno). A flexibilização remove, de tabela, a pressão para reduzir esses poluentes locais — impacto direto em comunidades próximas a instalações de óleo e gás.

O que observar nos próximos 45 dias (e depois)

A proposta entra agora em período de consulta pública de 45 dias antes da regra final. Três frentes merecem atenção:

  • Pressão judicial: Estados democratas e ONGs devem contestar a mudança na corte, alegando violação da Lei do Ar Limpo.
  • Resposta do mercado: Investidores com metas de descarbonização (Net Zero 2050) podem pressionar grandes petroleiras a manterem padrões voluntários — criando dois regimes de facto no setor.
  • Diplomacia climática: Os EUA são signatários do Compromisso Global do Metano (redução de 30% até 2030). O afrouxamento interno enfraquece a credibilidade externa.

Para quem toma decisão de alocação de capital ou gestão de risco regulatório, o sinal é claro: a volatilidade da política ambiental americana segue alta. Acompanhar não apenas o texto final da regra, mas a adesão voluntária das majors e a reação dos mercados de capitais, será decisivo para precificar ativos do setor nos próximos trimestres.