Cultura

Curta premiado do interior vira longa com produtora de “Cidade de Deus”: o que vem por aí

Cena do curta de terror "A Última Fita" gravado em Jundiaí SP premiado internacionalmente
Cena de "A Última Fita", curta de terror jundiaiense que virou longa com produção de Elisa Tolomelli

O curta-metragem de terror “A Última Fita”, gravado em Jundiaí (SP), será expandido para um longa com produção executiva de Elisa Tolomelli — nome por trás de “Cidade de Deus” e “Central do Brasil”. A adaptação, ainda em fase de roteiro, promete levar uma história nascida no interior paulista ao circuito comercial com estrutura de mercado. Mas o caminho até aqui revela muito sobre como o audiovisual brasileiro está mudando de eixo.

Com 18 minutos e seis prêmios internacionais em festivais de slasher, o filme de Caroline Adrielli chamou atenção pela execução técnica: 100% de efeitos práticos, sem CGI. A produtora viu ali não só um bom curta, mas uma diretora que domina a linguagem do gênero com recursos enxutos. Esse foi o gatilho para a parceria.

Por que uma produtora de Oscar aposta em um curta de terror do interior

Elisa Tolomelli acumula cerca de 40 projetos, incluindo “Lavoura Arcaica” e as duas indicações brasileiras ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Seu critério para entrar no projeto foi direto: clareza narrativa da diretora e potencial de expansão da história. “Vi na Carol clareza sobre o que e como quer contar”, afirmou.

A produtora também declarou preferência por trabalhar com talentos em início de carreira. Para ela, a nova geração traz “frescor e novas ideias” que, combinadas com estrutura profissional, geram projetos viáveis comercialmente. A Inova Filmes, sua empresa, entra com finalização, efeitos e suporte de desenvolvimento — etapas que um curta independente não costuma acessar.

O que muda do curta para o longa: estrutura de mercado

A transição não é apenas alongar o roteiro. Caroline Adrielli explicou que o curta funcionou como “primeira oportunidade de mostrar esse universo”. No longa, بعنوان provisório “A Fita”, a diretora vai explorar o que ficou fora da tela: o antes da chegada dos jovens à casa, a motivação do aluguel e a construção do universo do assassino por trás das fitas VHS.

  • Contexto dos personagens: quem são, por que foram até ali, dinâmicas anteriores
  • Mecânica do vilão: como as fitas são preparadas, o ritual por trás das gravações
  • Expansão do lore: a década de 1990 como pano de fundo narrativo, não só estético

O subgênero slasher exige tempo para desenvolver vítimas, sequências de perseguição e motivação do assassino — algo que 18 minutos não comportam. Críticas de influenciadores de terror confirmaram a lacuna: “o filme acabou no melhor momento”.

Produção profissional vs. independente: o salto de escala

Para a diretora, a diferença é estrutural. “Curta a gente faz reunindo amigos, batendo nas portas. Longa não é coisa que se faz com amigos. É mercado de cinema.” A parceria traz acesso a editais, cronograma de filmagens, elenco profissional, pós-produção padronizada e estratégia de distribuição — ativos que o interior historicamente tem dificuldade de acessar.

Elisa Tolomelli reforça o impacto econômico local: filmar fora dos grandes centros movimenta fornecedores, hotéis, alimentação, técnicos da região. “Gera empregos diretos e indiretos. Envolve a comunidade em torno do projeto.” A filosofia é levar o cinema profissional para onde ele não costuma chegar, e trazer dali histórias que o eixo Rio-SP não conta.

Cronograma realista: o que está confirmado e o que é projeção

O roteiro deve ficar pronto no início de 2027. A expectativa da produção é iniciar filmagens no segundo semestre do ano que vem. Não há elenco anunciado, data de lançamento ou orçamento divulgado. O projeto foi inscrito em dois editais de desenvolvimento — etapa anterior à captação de recursos para produção.

Enquanto o longa não sai do papel, o curta original terá exibição gratuita neste sábado (31), às 18h30, no MIS-SP, em São Paulo. A sessão de Halloween marca a estreia na capital e funciona como vitrine para o projeto em desenvolvimento.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se “A Fita” vira case de sucesso ou fica no limbo de projetos anunciados: aprovação nos editais de 2025, captação de recursos complementares (leis de incentivo, streaming, coprodução) e manutenção da visão autoral sob estrutura industrial. O terror brasileiro vive momento de expansão comercial — “A Última Fita” pode testar se há espaço para slasher nacional com DNA de interior e acabamento de exportação.