Os governadores aprovaram nesta terça-feira (27) o reajuste do ICMS sobre combustíveis para 2027, com alta de 11,1% no diesel e 4,5% na gasolina. A decisão do Confaz transfere para o consumidor a fatura da disparada do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio. Mas o tamanho da conta esconde uma assimetria perigosa para o transporte de cargas.
Os novos valores, válidos a partir de 1º de fevereiro de 2027, fixam o acréscimo em R$ 0,13 por litro de diesel, R$ 0,07 na gasolina e R$ 0,91 no botijão de 13 kg de gás de cozinha. A regra segue a lei complementar 192/2022, que padronizou a cobrança em reais por litro em todo o país.
O quanto você vai pagar a mais
A metodologia não permite discricionariedade: compara a média de preços da ANP entre fevereiro e setembro de 2026 com o mesmo intervalo de 2025. O problema é o que aconteceu nesse recorte temporal.
- Diesel: +R$ 0,13/litro (11,1%)
- Gasolina: +R$ 0,07/litro (4,5%)
- GLP 13kg: +R$ 0,91/unidade (4,8%)
O período de referência de 2026 coincide exatamente com o início dos ataques ao Irã, no final de fevereiro. Desde então, o barril do Brent saltou mais de 50%, turbinado pelo fechamento do Estreito de Ormuz e por ataques a refinarias russas. Antes da guerra, a tendência era de queda por sobreoferta global.
Diesel carrega o peso da instabilidade
O impacto não é simétrico. Nos postos, o diesel já acumula alta de 20% desde o início do conflito, mesmo com subsídios federais de R$ 2,12 por litro no produto nacional e R$ 1,40 no importado. A gasolina subiu 3% e o gás, 4%.
Essa diferença expõe a vulnerabilidade logística do país. O transporte rodoviário de cargas e o agronegócio absorvem o choque direto, pressionando o frete e, em cadeia, o preço dos alimentos. A gasolina, mais atrelada ao consumo familiar, tem respiro relativo.
Estados rejeitaram cortar a própria fatia
O Palácio do Planalto propôs redução do ICMS para amortecer o impacto. Os secretários estaduais de Fazenda disseram não. Chegaram a compor um fundo de compensação por dois meses, mas a adesão não se sustentou.
Agora, o Comsefaz sinaliza que estuda “abreviar os termos da lei” para o diesel. O comunicado cita “compromisso de cooperar”, mas não apresenta prazo, valor nem mecanismo concreto. A promessa fica no campo da intenção política.
O desafio da saída dos subsídios
O presidente reeleito domingo (25) herda um cenário de armadilha fiscal. Manter as subvenções ao diesel custa caro ao Tesouro; retirá-las faz o preço nas bombas explodir justamente no ano em que a nova alíquota do ICMS entra em vigor.
O mercado projeta petróleo pressionado ao longo de 2027. Se a guerra persistir e o câmbio não ajudar, a combinação de ICMS cheio com fim dos subsídios federais pode empurrar o diesel para patamares recordes nominais.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o preço real na bomba nos próximos meses: a disposição dos estados em converter a “estuda” do Comsefaz em redução efetiva da alíquota do diesel; o calendário de desmonte dos subsídios federais; e a geopolítica do Estreito de Ormuz. Qualquer movimento nessas frentes mexe no bolso do transportador — e, por tabela, no IPCA.
