Um objeto incandescente cruzou o céu de Maués (AM) na terça-feira (27) e deixou moradores intrigados com seu rastro lento e brilhante. O astrofísico Nélio Sasaki afirma que não se trata de um meteoro, mas de lixo espacial reentrando na atmosfera — e o fenômeno deve se tornar cada vez mais comum.
Vídeos feitos na Praia da Ponta da Maresia e no bairro Ramalho Júnior mostram o mesmo feixe luminoso movendo-se na direção sudoeste. A velocidade baixa foi a pista decisiva para o especialista do NEPA/UEA-Parintins descartar a hipótese de bólido.
Por que a velocidade entrega a origem do objeto
Segundo Sasaki, meteoros entram na atmosfera a dezenas de quilômetros por segundo e se fragmentam em frações de segundo. O objeto filmado em Maués movia-se de forma “bem lenta”, incompatível com rocha espacial natural.
“Com essa velocidade, não é um meteorito sendo esmagado pela atmosfera. Isso tem cara de lixo espacial”, resume o pós-doutor. Ele lembra que agências internacionais já haviam alertado para a queda de fragmentos de telescópios e satélites desativados durante esta semana.
O que acontece com o lixo que volta do espaço
A reentrada de detritos orbitais é rotina: a maioria se desintegra completamente ao atravessar as camadas densas da atmosfera ou cai nos oceanos, que cobrem 71% do planeta. Impactos em terra firme são raros e, quando ocorrem, podem formar crateras — mas não há indícios de que isso tenha acontecido em Maués.
- Frequência: centenas de objetos reentram anualmente, a maioria sem ser notada.
- Risco real: probabilidade de atingir área povoada é estatisticamente ínfima.
- Origem típica: estágios de foguetes, satélites fora de operação e detritos de colisões orbitais.
O custo invisível da conectividade na Amazônia
Sasaki conecta o episódio ao aumento exponencial de lançamentos orbitais. “Para ter internet no interior do Amazonas, colocamos satélites. Esses satélites envelhecem, falham e viram lixo”, explica. A região, que hoje desfruta de cobertura melhorada, paga o preço ambiental duplo: fumaça de queimadas no solo e detritos tecnológicos no céu.
O astrofísico destaca que a poluição orbital segue o mesmo padrão histórico da atividade humana: onde passa, deixa resíduos. A diferença é que, no espaço, não há serviço de limpeza — e cada fragmento aumenta o risco de colisões em cascata (síndrome de Kessler), ameaçando futuras missões e a própria infraestrutura de comunicações.
O que observar nos próximos meses
Com megaconstelações como Starlink, Kuiper e OneWeb planejando dezenas de milhares de novos satélites, eventos luminosos como o de Maués tenderão a se multiplicar. Acompanhar boletins de agências espaciais (INPE, NASA, ESA) e aplicativos de rastreamento orbital permite saber quando e onde peças maiores podem reentrar — transformando um susto momentâneo em oportunidade de ciência cidadã.
