Christopher Garman, diretor do Eurasia Group para as Américas, é direto: a escolha do ministro da Fazenda nos próximos dias é a única operação capaz de conter a crise de confiança que tomou conta dos ativos brasileiros. O mercado não espera perfeição, mas exige um sinal claro de compromisso com as contas públicas. A hesitação, alerta o analista, tem preço — e ele sobe a cada hora.
Diferente de 2022, quando havia “boa vontade” inicial, o cenário atual é de credibilidade fiscal “no chão”. As contas estão mais precárias, o Congresso que assume em fevereiro tem perfil conservador e o custo de não fazer nada nunca foi tão alto. Garman resume: sem nome forte e regra dura para o gasto obrigatório, o Banco Central não terá espaço para cortar juros.
Os dois nomes que o mercado “compraria” hoje
A bolsa de apostas concentra-se em dois perfis que unem peso político e reputação fiscal. O vice-presidente Geraldo Alckmin traz a experiência de gestão estadual e trânsito no centro. Já o governador do Piauí, Rafael Fonteles, carrega um currículo técnico robusto: ex-secretário de Fazenda, ex-presidente do Comsefaz e doutor em economia.
Para Garman, Fonteles é “um nome que o mercado estaria disposto a aceitar” pela trajetória de controle de contas estaduais. Alckmin ofereceria a blindagem política imediata. Ambos sinalizariam que o ajuste não é retórica.
Por que Haddad e Camilo Santana perdem força
O ex-ministro Fernando Haddad sai enfraquecido da disputa paulista. A aposta de que ele migraria para a Casa Civil perdeu convicção nas últimas semanas. O senador Camilo Santana (PT-CE), por sua vez, aparece mais forte justamente para a articulação política na Casa Civil, não para a linha de frente fiscal.
A leitura do Eurasia é pragmática: a pasta da Fazenda precisa de um “apaga-incêndio” técnico; a Casa Civil, de um articulador partidário. Misturar os papéis agora seria arriscado.
O “plano B” técnico que o PT resiste: Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, seria, nas palavras de Garman, “o nome mais respeitado perante o mercado”. A gestão à frente da autoridade monetária trouxe credibilidade imediata: metas de inflação cumpridas, técnica acima de ruído político.
O entrave é interno. Galípolo gerou atritos com alas do PT e teve embates públicos com Haddad durante a sucessão no BC. O presidente Lula confia nele, mas a base aliada desagrada. Nomeá-lo seria um aceno forte ao mercado, porém uma declaração de guerra a setores do próprio partido.
A armadilha do “ajuste gradual” sem mexer no gasto obrigatório
Garman faz um alerta cirúrgico: o mercado não comprará um ajuste baseado apenas em cortes discricionários. Controlar despesas via canetada do Executivo, sem mudar as regras constitucionais que indexam gastos obrigatórios (previdência, piso da saúde/educação, benefícios atrelados ao salário mínimo), não resolve a dinâmica da dívida.
A meta técnica colocada na mesa é limitar o crescimento real das despesas a menos de 2% ao ano. Isso só acontece com reforma estrutural — preferencialmente via PEC, como ocorreu na transição de 2022, mas agora no sentido inverso: travar a expansão automática.
Congresso hostil e a janela de novembro
O diagnóstico em Brasília aponta para uma proposta fiscal ainda em novembro, antes da posse. A ideia é replicar a velocidade da PEC da Transição, mas com sinal trocado: tirar poder de gasto, não adicionar. O problema é a correlação de forças: a nova legislatura é mais à direita e menos propensa a dar cheque em branco ao Planalto.
Se o governo não enviar o texto agora, perde a janela de transição e entra 2025 refém de um Orçamento já desenhado sob regras antigas.
O risco político: popularidade em queda e a tentação populista
Garman projeta um cenário incômodo para 2025/2026. Com desemprego baixo (5%) e renda real subindo 19% em três anos, a aprovação de Lula ronda 45%. Quando o estímulo fiscal e de crédito for retirado — e a economia desacelerar —, a tendência é queda de popularidade, possivelmente abaixo de 40%.
A reação histórica do PT a esse movimento costuma ser tributar “o andar de cima” ou o setor produtivo para financiar benefícios à classe média. Medidas assim minam produtividade, assustam investidores e travam o ciclo de queda de juros do BC.
O que observar daqui para frente
- Anúncio do ministro da Fazenda: deve ocorrer nos próximos dias; atraso sinaliza divisão interna.
- Texto da PEC/Projeto de Lei: foco exclusivo em regras do gasto obrigatório (indexadores, gatilhos, teto real).
- Reação da curva de juros: se os DIs longos não cederem, o sinal é de descrença na execução.
- Posicionamento de Galípolo: se permanecer no BC, reforça regime de metas; se sair, aumenta ruído.
- Articulação no Congresso: capacidade de Lula/Alckmin aprovar matéria fiscal em tempo recorde.
O fechamento da porta para o gradualismo frouxo é a única moeda que compra tempo. O relógio corre em novembro.
