O setor de energias renováveis no Brasil aposta na continuidade do governo Lula para destravar uma nova onda de investimentos a partir de 2027. A expectativa é que medidas estudadas nos últimos quatro anos finalmente saiam do papel, mas 2026 ainda reserva retração.
Enquanto a indústria espera, o prejuízo com cortes de geração atinge bilhões e trava novos projetos. A solução passa por rede, demanda e regulação — e o relógio está correndo.
O diagnóstico está pronto; falta a cirurgia
Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica, resume o cenário: o governo passou o mandato diagnosticando e planejando a “nova indústria brasileira”. A implementação efetiva, diz ela, fica para o próximo ciclo. A entidade projeta queda nas instalações eólicas em 2026, mas celebra aportes já anunciados por Casa dos Ventos e Statkraft.
Esses investimentos começam a aparecer “no chão de fábrica” e devem se traduzir em nova oferta a partir de meados de 2027. A projeção otimista aponta para uma curva crescente já em 2028, com potencial de 6 a 7 gigawatts anuais a partir de 2030.
Data centers: o motor que pode mudar o jogo
Lula vinculou publicamente as renováveis à expansão de data centers, destacando o potencial do Brasil para alimentar essa demanda com energia limpa. André Salgado, CEO da EDF Power Solutions, confirma: os centros de dados serão propulsores decisivos de novos projetos.
Mas há um entrave geográfico crítico:
- Geração concentrada no Nordeste e Norte (vento e sol abundantes)
- Demanda concentrada no Sudeste, eixo São Paulo — onde a rede já está saturada
- Planejamento integrado ainda inexistente para conectar as pontas
“Não adianta instalar tudo ao lado de São Paulo quando a energia está a milhares de quilômetros”, alerta Salgado. Sem expansão de transmissão e armazenamento, o gargalo persiste.
Curtailment: o inimigo invisível que drena bilhões
Os cortes de geração renovável — curtailments — tornaram-se a maior dor de cabeça do setor. Ocorrem quando a rede atinge limites operacionais e energia limpa é desperdiçada. Resultado: prejuízos bilionários e investimentos paralisados.
Grandes geradores condicionam novos aportes à solução do problema. Embora haja ressarcimentos retroativos parciais, a incerteza regulatória permanece. A discussão central agora é a classificação das restrições, especialmente as ligadas à sobreoferta no sistema.
Karin Luchesi, CEO da Elera (Brookfield), vê evolução no debate entre governo, Aneel, ONS, ministério e Congresso. Mas cobra urgência:
“É insustentável cortar 20%, 30% da geração renovável. Não faz sentido econômico.”
A Irena (Agência Internacional de Energia Renovável) confirma: o curtailment é um dos fatores por trás da desaceleração global esperada para 2026.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a retomada de 2027 se concretiza: velocidade das obras de transmissão, marco regulatório para armazenamento e hidrogênio verde, e a capacidade de atrair data centers para fora do eixo Sudeste. Empresários e investidores devem monitorar leilões de reserva de capacidade, editais de reforço de rede no Nordeste e a regulamentação do mercado de capacidade — sinais concretos de que o diagnóstico virou ação.
