Economia

Fintech bloqueia maior apostador do Brasil e BC sinaliza fim da linha para a A55

Ilustração conceitual: fintech A55 bloqueia conta ligada a apostas Blaze e lavagem de dinheiro, com aviso do Coaf e Banco Central
Imagem de capa mostra o encerramento de conta na A55 usada para enviar recursos à Blaze, após detecção de movimentações atípicas pelo compliance.

A fintech A55 Sociedade de Crédito Direto encerrou a conta do advogado Willer Tomaz de Souza e bloqueou seu CPF para novas operações após o setor de compliance detectar movimentações atípicas compatíveis com lavagem de dinheiro. A instituição comunicou o caso ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O detalhe que conecta os pontos: a conta servia de ponte para enviar recursos à plataforma de apostas Blaze.

Até aí, parece um procedimento padrão de prevenção. Mas o pano de fundo revela um cenário raro: ao mesmo tempo em que a A55 corta um cliente de altíssimo volume, o Banco Central (BC) move um processo para cancelar a própria autorização de funcionamento da fintech. Duas crises paralelas que expõem a fragilidade dos controles no elo entre meios de pagamento e o mercado de bets.

O gatilho: R$ 6,3 bilhões em apostas e “red flags” ignoradas

Segundo nota técnica do Ministério da Fazenda, Tomaz foi o maior apostador pessoa física do Brasil em 2025, com volume de R$ 5 bilhões. Documentos acessados pela reportagem mostram que, em 2026, o advogado adicionou mais R$ 1,3 bilhão em apostas, tendo a Blaze como destino prioritário.

A A55 identificou que as transações fugiam completamente do perfil cadastrado do cliente. Em termos técnicos, acenderam-se as chamadas “red flags”: operações incomuns, valores desproporcionais à renda declarada e destinação a uma única contraparte — a casa de apostas. Diante disso, a fintech aplicou a legislação de prevenção à lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98), bloqueou o acesso e reportou a suspeita ao Coaf.

  • Volume 2025 (Fazenda): R$ 5 bilhões
  • Volume 2026 (documentos): R$ 1,3 bilhão
  • Destino principal: Blaze
  • Ação da A55: Encerramento de conta, bloqueio de CPF, reporte ao Coaf

A fintech sob mira do Banco Central

Paralelamente ao caso Tomaz, a A55 enfrenta uma ameaça existencial. Em julho, o BC tornou pública a intenção de cancelar a autorização da sociedade de crédito, citando o descumprimento do plano de negócios, a não prática da atividade autorizada e a impossibilidade de localização da instituição no endereço cadastrado (Consolação, São Paulo).

A autarquia informou que o processo corre sob sigilo. A A55, constituída em 2022 com capital social de R$ 3,1 milhões e sócios André Wetter e Hugo Mathecowitsch, atua também em desenvolvimento de software e cobrança. A combinação de licença de SCD com atividades de tecnologia é comum no setor, mas exige aderência estrita ao plano de negócios aprovado — ponto sensível na visão do regulador.

O cliente, a bet e a investigação federal

Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal em inquérito que apura lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ramificação que toca o senador Flávio Bolsonaro (PL). A suspeita central: as apostas na Blaze serviriam para ocultar a origem de recursos ilícitos.

O Ministério da Fazenda constatou que a Blaze não cumpriu obrigações de fiscalização e controle necessárias para operar no país. Isso coloca a plataforma na mira da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), que endurece as regras para integração com meios de pagamento e verificação de origem de fundos (KYC/AML).

Defesas e o jogo de xadrez judicial

A defesa de Tomaz nega irregularidades. Em nota, afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam na declaração de Imposto de Renda. Contesta os valores da Fazenda — “não correspondem à realidade” — e aponta “estranheza” no vazamento de dados protegidos por sigilo fiscal em período eleitoral. O tema, diz a assessoria, é objeto de ação judicial em curso.

Já a assessoria de Flávio Bolsonaro sustenta que o senador não é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) e que os autos ainda não foram convertidos em inquérito, aguardando manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O que observar daqui para frente

Três frentes ditam os próximos capítulos e merecem atenção de quem opera ou investe no ecossistema financeiro e de apostas:

  1. Decisão final do BC sobre a A55: Se o cancelamento da autorização se concretizar, abre precedente para outras SCDs com plano de negócios descolado da operação real.
  2. Desfecho do inquérito da PF: A conexão entre fluxo de pagamentos (A55), cliente de altíssimo risco (Tomaz) e operadora não conformada (Blaze) é o caso-teste perfeito para a nova regulação de bets.
  3. Resposta da Blaze e da SPA: A capacidade da casa de apostas de comprovar conformidade — ou a falta dela — ditará o ritmo de novas sanções e possíveis bloqueios de domínio/ Pagamentos.

Para o mercado, a lição é direta: compliance não é custo, é condição de sobrevivência. Fintechs que servem de “tubo” para volumes bilionários sem governança robusta de KYC e monitoramento transacional tendem a ter vida curta sob a lupa do BC e do Coaf.