O Boletim Focus desta semana trouxe alívio nos índices de preços, mas manteve os juros terminal em patamar que ainda aperta o crédito. A pesquisa, fechada antes do resultado das urnas, mostra inflação a 5,19% para 2024 — abaixo da meta com tolerância — enquanto a Selic segue projetada em 13,25% até dezembro.
O contraste entre desinflação e juros altos cria um cenário de “duplo aperto” para empresas que planejam investir no próximo ano. A pergunta que fica: o Banco Central terá espaço para acelerar os cortes se a inflação continuar cedendo?
O que os números revelam sobre a inflação
A mediana das projeções para o IPCA recuou pela segunda semana consecutiva. Para 2024, a estimativa passou de 5,22% para 5,19%. Em 2025, subiu levemente de 4,32% para 4,34%, ainda dentro do intervalo de tolerância da meta de 3%. Já 2026 ficou estável em 3,75%.
- 2024: 5,19% (era 5,22%)
- 2025: 4,34% (era 4,32%)
- 2026: 3,75% (inalterado)
A meta oficial é 3% ao ano, com banda de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja: o teto aceitável para 2024 é 4,5%. A projeção atual ainda estoura esse limite, mas a trajetória aponta convergência.
Crescimento e câmbio: revisões marginais, sinal relevante
O PIB esperado para 2024 recuou de 1,83% para 1,8%. Para 2025, a projeção caiu de 1,32% para 1,31%. Ajustes pequenos, mas que reforçam a visão de desaceleração gradual da atividade.
No câmbio, o dólar projetado para o fim de 2024 caiu de R$ 5,13 para R$ 5,05. Para 2025, a estimativa recuou de R$ 5,22 para R$ 5,15. A apreciação esperada ajuda a conter pressões de preços administrados e importados.
Selic: o nó que não desata
Apesar da inflação mais comportada, a taxa básica de juros terminal para 2024 não mexeu: 13,25% ao ano. O mercado embute dois cortes de 0,25 ponto percentual — um em novembro, outro em dezembro. Ritmo cauteloso.
Para 2025, a projeção caiu de 12% para 11,75%. A queda sinaliza que os analistas veem espaço para afrouxamento adicional, mas condicionado a dados fiscais e externos.
Mas o efeito mais relevante aparece no comportamento dos ativos após o resultado eleitoral.
O fator político e a reação dos mercados
O levantamento foi encerrado na sexta-feira (23), antes da confirmação da reeleição. Na abertura desta segunda, ativos brasileiros no exterior registravam quedas expressivas. A expectativa era de desvalorização forte do real e das ações no pregão local.
Agentes financeiros viam na alternativa derrotada maior probabilidade de controle das contas públicas — embora nenhum plano detalhado de ajuste tenha sido apresentado durante a campanha. A incerteza fiscal segue como variável-chave para o prêmio de risco.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam os próximos passos do Copom e do câmbio: a tramitação do arcabouço fiscal no Congresso, a evolução do núcleo de inflação de serviços e a postura do Federal Reserve. Se o fiscal entregar credibilidade, a Selic pode cair mais rápido que os 11,75% projetados para fim de 2025. Se não, o juro real elevado permanece freando investimento e consumo.
Para o empresário, a leitura prática é: planeje 2025 com custo de capital ainda alto, mas monitore sinais de aceleração nos cortes. A janela de oportunidade abre se a inflação de serviços ceder e o fiscal andar.
