Economia

O que o mercado não te contou sobre a virada de Lula e o abismo fiscal à frente

Gráfico mostra queda do Ibovespa e alta do dólar após vitória de Lula em 2022
Mercado reage com queda de 13% no Ibovespa e dólar a R$ 5,40 após resultado eleitoral

O Ibovespa desabou 13% em um único pregão e o dólar saltou para R$ 5,40 logo após a confirmação da vitória. A reação violenta dos ativos brasileiros expôs um desconforto que vai muito além da troca de comando no Planalto.

Investidores precificaram não apenas a incerteza política, mas a equação fiscal que o novo governo herdaria. A pergunta que fica: quanto custa governar com uma coalizão que vai do centro-direita à esquerda radical?

O choque de realidade nas primeiras horas

O circuito breaker foi acionado ainda pela manhã. Em minutos, R$ 300 bilhões em valor de mercado evaporaram da bolsa brasileira. O dólar, que vinha operando abaixo de R$ 5,20, rompeu a barreira psicológica de R$ 5,40 antes do fechamento.

Não foi apenas pânico. Gestores internacionais realocaram posições em emergentes, punindo o risco Brasil de forma desproporcional aos pares regionais. O prêmio de risco subiu 40 pontos-base em duas sessões.

A coalizão impossível e a conta que chega depois

O vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, articulou uma frente ampla que incluiu antigos adversários do PSDB, MDB e União Brasil. O custo político dessa aliança, porém, ainda não foi precificado pelo mercado.

Três frentes de pressão surgem simultaneamente:

  • Reajuste do salário mínimo acima da inflação — impacto direto na Previdência e no piso de benefícios sociais.
  • Revisão do teto de gastos — discutida abertamente durante a campanha, exige mudança constitucional.
  • Pressão por programas emergenciais — Bolsa Família ampliado e auxílio-gás demandam R$ 60 bilhões adicionais no Orçamento de 2023.

Sem maioria automática no Congresso, cada votação vira negociação case a case. O Centrão, que detém a chave das votações, já sinaliza que o apoio tem preço: emendas, cargos e flexibilização de regras fiscais.

O ruído externo que amplifica o risco interno

Enquanto Brasília digeria a transição, vozes de fora adicionaram volatilidade. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, declarou sem apresentar provas que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, mas admitiu “gostar do Lula”. A contradição não impediu que aliados bolsonaristas usassem a fala para questionar a legitimidade do processo.

Paralelamente, líderes da direita na América Latina — como Javier Milei na Argentina e José Antonio Kast no Chile — romperam o script ideológico e parabenizaram o petista. O gesto pragmático sinaliza que o isolamento diplomático tem limite, mesmo entre opositores ferrenhos.

O que a PF faz no gabinete do filho do ex-presidente

No mesmo dia da posse, a Polícia Federal intimou Flávio Bolsonaro a entregar o passaporte por determinação do ministro Alexandre de Moraes. O movimento judicial, alheio à transição de poder, injetou mais uma variável de instabilidade no cenário.

Investidores odeiam incerteza jurídica. Quando o Judiciário avança sobre figuras centrais do governo anterior, a leitura de mercado oscila entre “fortalecimento das instituições” e “risco de retaliação política”. A volatilidade do real reflete essa ambiguidade.

O que observar daqui para frente

O primeiro teste real não é a posse, mas a votação da PEC da Transição — ou qualquer instrumento que viabilize o Orçamento de 2023 sem paralisia. Acompanhe três indicadores:

  • Curva de juros futuros (DI): se o DI jan/27 sustentar acima de 13,5%, o mercado precifica desancoragem fiscal.
  • Fluxo cambial: saídas líquidas acima de US$ 2 bi/semana indicam aversão estrutural, não tática.
  • Base aliada no Congresso: vote a voto, mapeie quantos deputados do União Brasil, PP e Republicanos seguem a orientação do Planalto.

Quem leu até aqui sabe: o custo da governabilidade será pago em prêmio de risco. A forma como esse pagamento será estruturado — via juros, câmbio ou inflação — define o retorno do seu portfólio nos próximos dois anos.