O déficit em transações correntes do Brasil caiu para US$ 5,1 bilhões em setembro de 2026 — uma redução de 42% frente aos US$ 8,8 bilhões registrados no mesmo mês do ano anterior. O dado, divulgado nesta segunda-feira (26.out.2026), surpreendeu analistas que projetavam um recuo menos acentuado. Mas o número isolado esconde movimentos que merecem atenção.
O que puxou a melhora
Três forças atuaram em conjunto. A balança comercial teve superávit de US$ 6,3 bilhões no mês, impulsionada por exportações recordes de petróleo e soja. A conta de serviços, tradicionalmente deficitária, reduziu o saldo negativo para US$ 2,1 bilhões — o menor patamar desde 2022. E a renda primária, que remunera capital estrangeiro no país, mostrou alívio com a queda dos juros globais.
Em doze meses, o déficit acumulado recuou para US$ 42,7 bilhões, equivalentes a 1,9% do PIB. Em setembro de 2025, a mesma métrica marcava 2,6%.
O efeito nos investimentos diretos
O Investimento Direto no País (IDP) somou US$ 4,9 bilhões em setembro, cobrindo 96% do déficit do mês. No ano, a entrada líquida atinge US$ 58,3 bilhões — volume que supera com folga a necessidade de financiamento externo. A composição, porém, mudou: participações no capital caíram 18%, enquanto empréstimos intercompanhia cresceram 34%.
- IDP setembro 2026: US$ 4,9 bi
- IDP acumulado 12 meses: US$ 58,3 bi
- Cobertura do déficit mensal: 96%
Reservas e vulnerabilidade
As reservas internacionais fecharam setembro em US$ 362,4 bilhões, alta de US$ 3,1 bilhões no mês. O colchão equivale a 18 meses de importações — nível considerado confortável pelo FMI. Ainda assim, a dívida externa de curto prazo subiu 7% no trimestre, atingindo US$ 54,2 bilhões. Parte desse aumento reflete rolagem de linhas de trade finance, sensíveis a mudanças de apetite de risco.
Mas o efeito mais relevante aparece na conta financeira derivados.
Derivados e hedge cambial
Operações com derivativos geraram entrada líquida de US$ 2,8 bilhões em setembro, o maior fluxo mensal desde março de 2023. Bancos e grandes exportadores ampliaram posições de proteção cambial diante da volatilidade do dólar, que oscilou entre R$ 5,45 e R$ 5,78 no período. O movimento sugere que agentes antecipam pressão sobre a moeda nos próximos trimestres.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis ditam o ritmo das contas externas até o fim do ano: a safra de soja 2026/27, que começa a ser colhida em janeiro; a trajetória da Selic, que afeta o custo da rolagem da dívida curta; e o ritmo de crescimento da China, principal destino das exportações brasileiras. O Banco Central projeta déficit em transações correntes de US$ 55 bilhões para 2026 — se confirmado, será o menor desde 2020. A conferir se o IDP mantém a cobertura acima de 90% sem depender excessivamente de empréstimos intercompanhia.
