Eleitores ficaram presos na rodoviária de João Pessoa na manhã do segundo turno, com sites indicando viagens inexistentes e guichês sem respostas. A promessa de gratuidade total esbarrou em uma operação que, na prática, não saiu do papel. O que explica o apagão logístico em um dia decisivo para a democracia?
O relato nas filas: horários fantasmas e terminais vazios
Passageiros que madrugaram para votar em cidades do interior — como Mamanguape, Rio Tinto, Areia e Bananeiras — encontraram um cenário caótico. Relatos dão conta de que plataformas de venda online exibiam saídas às 7h, mas, ao chegar ao terminal, a informação era outra: embarque apenas após o meio-dia.
Um eleitor afirmou ter chegado antes das 6h e não encontrado nenhum veículo para Rio Tinto. A divergência entre o sistema digital e a realidade física do terminal transformou o direito ao voto em uma corrida contra o tempo sem linha de chegada clara.
A versão do DER-PB: frota ociosa e “caixa-preta” das empresas
O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PB) admitiu dificuldade para auditar a operação em tempo real. Segundo o órgão, as equipes administrativas das concessionárias não estavam nas garagens pela manhã, impedindo o acesso aos sistemas de registro de saída.
Em nota, o departamento sustentou que:
- Guichês e fiscais operavam normalmente;
- Viagens foram disponibilizadas durante a manhã;
- Os ônibus não saíram com lotação completa.
A explicação oficial aponta para horários programados — não para demanda imediata —, mas não esclarece por que canais de venda apontavam partidas que não ocorreram.
Transporte urbano: vídeo flagra motorista ignorando ponto de embarque
O problema não se limitou às linhas intermunicipais. Nos bairros da capital, denúncias de atrasos e recusa de parada multiplicaram-se. Um vídeo gravado no Bairro das Indústrias mostra um coletivo passando direto por passageiros aguardando sob chuva.
Relatos semelhantes surgiram no Grotão, Funcionários e Colinas do Sul. O Sindicato das Empresas (Sintur-JP) atribuiu os atrasos ao trânsito intenso, mas não comentou as acusações de “passagem direta” em pontos cheios.
O custo político e a resposta institucional
A pressão subiu rápido. O prefeito Leo Bezerra (PSDB) acionou o governador Lucas Ribeiro (PP), que prometeu solução imediata e envolveu o TRE-PB. A Prefeitura determinou apuração rigorosa e reforçou a ordem: acesso total, gratuito e irrestrito, sob pena de punição para abusos confirmados.
Já a Ouvidoria do Ministério Público (MPPB) contabilizou cerca de 30 denúncias formais até o fechamento da tarde — número parcial, já que promotorias eleitorais seguiam abertas. As queixas envolvem tanto a cobrança indevida no intermunicipal quanto a recusa de parada no urbano.
O que observar daqui para frente
O episódio expõe a fragilidade da fiscalização em datas de alta demanda cívica. Para gestores e concessionárias, fica o alerta: a desconexão entre sistemas de venda, operação de garagem e fiscalização de rua cria um vácuo de responsabilidade que pune o cidadão.
Nos próximos dias, a apuração do MPPB e do DER-PB deve ditar se haverá sanções contratuais ou multas. O mercado deve monitorar se o estado editará normas mais duras de contingência para pleitos futuros, transformando a gratuidade legal em garantia operacional real.
