O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuário deve fechar 2026 em R$ 1,44 trilhão, uma retração de 3% frente ao ano anterior. A queda só não foi dramática porque duas cadeias específicas carregaram o setor nas costas. Entenda o que está por trás dos números e quais culturas amargam prejuízos históricos.
O pilar que segurou a soja
A oleaginosa confirma seu status de “salvadora da pátria”. Com safra projetada próxima de 180 milhões de toneladas, a soja injetará R$ 353 bilhões na economia, alta de 3,3%.
O movimento não é apenas de volume. O preço da saca no Paraná saltou de R$ 125 em janeiro para R$ 154 em setembro, segundo o Cepea. Essa recuperação no segundo semestre mudou a projeção de receita de toda a cadeia.
A Abiove revisou suas estimativas para cima: a indústria deve processar 64 milhões de toneladas internamente este ano, podendo chegar a 66 milhões no próximo. As divisas de exportação pularão de US$ 53 bilhões para US$ 60 bilhões, com meta de US$ 69 bilhões para 2027.
Boi gordo: a outra metade da equação
Se a soja garante o volume, a pecuária garante o preço. A bovinocultura deve render R$ 253 bilhões, crescimento robusto de 11% impulsionado pela demanda externa aquecida.
A arroba do boi gordo, que começou o ano cotada a R$ 321, fechou setembro a R$ 377 — e já foi negociada a R$ 380 nesta semana. Juntas, soja e boi respondem por 42% de todo o VBP nacional, mascarando a fragilidade do restante do portfólio.
O lado oculto: quedas de dois dígitos
Longe dos holofotes, culturas tradicionais enfrentam um cenário de preços retraídos após ciclos de alta. O impacto no VBP é brutal:
- Cacau: -56%
- Laranja: -48%
- Trigo: -28%
- Arroz: -24%
- Cana-de-açúcar: -7% (para R$ 112 bi)
- Milho: -3% (ainda assim R$ 162 bi)
- Café: -10%
No caso de cacau, laranja e café, a correção ocorre após picos históricos. Para trigo e arroz, a pressão vem de safras cheias e preços internacionais comprimidos.
O que observar daqui para frente
O cenário para 2027 dependerá de três variáveis que ainda estão em aberto: o ritmo da demanda chinesa por farelo e óleo de soja, a manutenção do dólar em patamares favoráveis à exportação de carne e a recuperação climática no Centro-Sul para cana e grãos de inverno.
Enquanto isso, a Abiarroz tenta reverter a queda de consumo com campanhas de versatilidade do cereal — a Conab estima 10,8 milhões de toneladas anuais. Para o investidor, o recado é claro: a concentração de risco em duas commodities nunca foi tão evidente.
