Equipes ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) avançam em conversas para uma associação societária entre o Banco do Brasil e o Bank of America. A operação desenhada prevê a entrada do gigante norte-americano no capital da instituição brasileira, com assento no conselho e poder de influência na gestão, sem que a União abra mão do controle acionário majoritário.
O movimento reacende um debate adormecido desde a gestão Paulo Guedes e impõe uma pergunta direta ao mercado: como precificar um ativo estatal que pode ganhar governança global mantendo o “dono” em Brasília?
O modelo em discussão: privatização parcial com controle estatal
A estrutura em estudo não é uma venda tradicional. A ideia é uma capitalização com investidor estratégico: o Bank of America adquiriria uma fatia minoritária relevante — suficiente para indicar conselheiros e veto em decisões sensíveis — enquanto a União preservaria os 50% mais uma ação que garantem o controle estatutário.
Esse formato resolve dois problemas simultâneos: traz capital e expertise de varejo/alta renda para o BB sem exigir o aval do Congresso para uma privatização plena, barrada por resistência política histórica.
O obstáculo societário: a matemática dos 50% mais um
O nó jurídico está na composição acionária atual. A União detém exatamente a maioria do capital votante. Qualquer emissão primária ou secundária que dilua essa fatia abaixo do limiar legal exige alteração legislativa ou modelo engenhoso de governança.
Segundo fontes a par das tratativas, as alternativas na mesa incluem:
- Emissão de ações preferenciais sem direito a voto para o parceiro estrangeiro;
- Acordo de acionistas que conceda direitos políticos proporcionais ao investimento;
- Criação de “golden share” com vetos específicos para a União em temas estratégicos.
Nenhuma das saídas é trivial e todas demandam aval do Banco Central e da CVM.
Histórico: a ideia que vem de Paulo Guedes e Daniella Marques
A proposta não nasceu agora. Em 2018, Paulo Guedes aventou uma fusão entre as duas instituições durante a transição de governo. Em 2019, repetiu a tese em evento nos EUA, argumentando que a sinergia de plataformas digital e de câmbio criaria um “banco global tropical”.
Mais recentemente, em setembro de 2024, Daniella Marques — ex-presidente da Caixa e nome próximo ao entorno econômico de Flávio — declarou publicamente em evento do Grupo Esfera que as ações do BB negociavam “abaixo do valor patrimonial”, sinalizando abertura para reestruturações de capital.
Dimensão geopolítica: alinhamento com Washington e o fator Trump
Além da engenharia financeira, a operação carrega peso diplomático. Uma parceria com o Bank of America — um dos “big four” americanos — aproximaria os sistemas de pagamentos, financiamento à exportação e infraestrutura dos dois países.
Para a família Bolsonaro, o acordo funciona como carta de apresentação ao establishment financeiro dos EUA, especialmente em cenário de eventual vitória de Donald Trump em novembro. A proximidade pessoal com a ala republicana facilitaria o trâmite regulatório no Fed e no Tesouro americano.
Impacto direto para o investidor: valuation, dividendos e risco regulatório
Se concretizada, a entrada do Bank of America tende a comprimir o desconto de governança que hoje pesa sobre as ações do BB (ticker BBAS3). O mercado precifica o banco estatal com P/VP (preço sobre valor patrimonial) historicamente abaixo de pares privados como Itaú e Bradesco.
Do lado dos dividendos, a gestão compartilhada pode elevar a eficiência operacional e a originação de crédito de maior spread, ampliando o payout à União. Contudo, a remessa de lucros ao exterior e a exposição a compliance americano (FCPA, sanções) introduzem novos vetores de risco.
O que observar daqui para frente: gatilhos e prazos
Três marcos definirão a viabilidade do negócio nos próximos trimestres:
- Definição do modelo societário até o primeiro semestre de 2025, com parecer da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional;
- Posicionamento do Banco Central sobre a aptidão do Bank of America como controlador indireto de instituição sistemicamente importante;
- Cenário eleitoral de 2026: a tramitação depende de vontade política do futuro governo, seja ele qual for.
Enquanto o desenho não sai do papel, o investidor racional monitora o spread de ADRs do BB em Nova York e a volatilidade das opções de BBAS3 — termômetros reais da probabilidade percebida pelo mercado.
