O Ministério de Minas e Energia abriu na sexta-feira (23) uma consulta pública que pode ditar o ritmo da eletrificação no Brasil nos próximos dez anos. A iniciativa surge enquanto as vendas de veículos leves eletrificados disparam: 381.609 unidades emplacadas apenas entre janeiro e setembro, volume 70% superior a todo o ano de 2024.
Em setembro, quase um em cada cinco carros leves vendidos no país era eletrificado — 19,8% de participação. O número supera as projeções oficiais e sinaliza uma mudança estrutural, não apenas um pico conjuntural.
Por que a infraestrutura não acompanha as vendas
Hoje, o Brasil conta com 29.866 pontos públicos e semipúblicos de recarga. Parece muito, mas a distribuição é o verdadeiro gargalo. São Paulo sozinho concentra 26,3% de toda a rede. Some os três estados do Sul e a fatia salta para 50,7%.
No extremo oposto, os sete estados do Norte somam míseros 3,4% dos carregadores. Para o motorista que vive fora do eixo Sul-Sudeste, a autonomia real do veículo continua limitada pela geografia.
O mapa dos investimentos que explica o boom
A aceleração não acontece por acaso. Montadoras estrangeiras anunciaram aportes que, somados, beiram R$ 130 bilhões até 2030. Os principais movimentos:
- BYD: pediu licença para dobrar a capacidade da fábrica na Bahia para 600 mil veículos/ano
- Stellantis, Volkswagen, Toyota e GWM: têm elétricos e híbridos no centro de seus planos de produção local
Com produção nacional ganhando escala, o custo de aquisição cai e a oferta de modelos cresce — alimentando o ciclo de vendas.
O desafio invisível: a rede elétrica
Não basta instalar carregadores. O governo projeta que a eletromobilidade consumirá cerca de 15 TWh em 2036, volume comparável a outras grandes cargas novas do planejamento setorial. O problema não é apenas quanto, mas onde e quando essa energia será demandada.
Concentrações locais de recarga — em condomínios, garagens corporativas, centros logísticos e corredores rodoviários — podem sobrecarregar circuitos de distribuição e transformação. A nota técnica do ministério alerta: o impacto será puntual, exigindo planejamento cirúrgico, não genérico.
O que a consulta pública vai definir
O diagnóstico que sairá da consulta deve endereçar três frentes:
- Barreiras legais e regulatórias que travam a expansão da rede
- Integração técnica dos carregadores às distribuidoras de energia
- Diretrizes para que o planejamento energético internalize a demanda veicular
O prazo para contribuições é de 30 dias. Empresas do setor elétrico, fabricantes, operadores de recarga e consumidores podem enviar subsídios.
O que observar daqui para frente
Dois indicadores dirão se o plano sai do papel: a velocidade de interiorização dos pontos de recarga (especialmente no Norte e Nordeste) e a capacidade das distribuidoras de antecipar reforços de rede onde a frota eletrificada cresce mais rápido. Quem acompanha o setor deve monitorar os editais de chamamento público das concessionárias e os próximos leilões de transmissão — ali estará a resposta real para a pergunta que a consulta lançou.
