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O Brasil tem 30 mil pontos de recarga — mas 50% estão no Sul e SP. O governo quer mudar isso

Mapa do Brasil destaca concentração de pontos de recarga elétrica no Sul e São Paulo
Infraestrutura de recarga desigual: metade dos 30 mil pontos está concentrada em duas regiões.

O Ministério de Minas e Energia abriu nesta sexta-feira (23) uma consulta pública de 30 dias para desenhar o futuro da infraestrutura de recarga de veículos elétricos no país. A motivação é urgente: as vendas dispararam 70% nos primeiros nove meses de 2024 frente a todo o ano anterior, e a rede atual não acompanha.

São 381.609 emplacamentos de veículos leves eletrificados entre janeiro e setembro. Em setembro, quase um em cada cinco carros vendidos (19,8%) já era eletrificado — ritmo que supera as projeções oficiais. O governo classifica a tendência como estrutural, não conjuntural.

O dinheiro já está na mesa: R$ 130 bilhões até 2030

Montadoras instaladas no Brasil — Stellantis, Volkswagen, Toyota, GWM e a chinesa BYD — têm planos de investimento que somam cerca de R$ 130 bilhões até 2030. A BYD, sozinha, pediu licenças para dobrar a capacidade de sua fábrica na Bahia para 600 mil veículos por ano.

O volume de capital em jogo exige uma rede de recarga à altura. Hoje, ela não existe.

29.866 pontos — e a metade concentrada em duas regiões

O país conta com 29.866 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo dados da ABVE e Tupi Mobilidade. A distribuição, porém, é assimétrica:

  • São Paulo: 26,3% do total
  • Região Sul (PR, SC, RS) + SP: 50,7%
  • Região Norte (7 estados): apenas 3,4%

Essa concentração condiciona o uso real dos veículos. Quem mora fora do eixo Sul-Sudeste encontra desertos de recarga — um freio invisível à adoção em massa.

O desafio invisível: 15 TWh e a geometria da demanda

O ministério projeta que o consumo de energia para eletromobilidade alcance aproximadamente 15 TWh em 2036. Em magnitude, equivale a outras novas cargas relevantes já previstas no planejamento setorial.

Mas o volume não é o único problema. A nota técnica alerta para a distribuição espacial e temporal dessa demanda: picos localizados em condomínios, garagens corporativas, centros logísticos e corredores rodoviários podem sobrecarregar circuitos de distribuição e transformação.

O efeito mais relevante aparece na ponta da rede — onde o planejamento tradicional não costuma olhar.

O que a consulta quer resolver

O edital busca quatro frentes simultâneas:

  • Mapear barreiras legais e regulatórias atuais
  • Definir ajustes normativos para integrar recarga às redes de distribuição
  • Criar diretrizes de planejamento energético que considerem a eletromobilidade
  • Subsidiar um diagnóstico nacional com dados reais de uso e ocupação

As contribuições ficam abertas por 30 dias. O resultado deve orientar desde regras de rateio de custos em condomínios até critérios de outorga para eletropostos em rodovias federais.

O que observar daqui para frente

Três sinais valem monitorar nos próximos meses: a velocidade de interiorização dos pontos de recarga (especialmente no Norte e Nordeste), a definição de tarifas dinâmicas para recarga em horários de valle, e os primeiros leilões ou chamadas públicas para infraestrutura em corredores logísticos. Quem antecipa esses movimentos — seja no setor imobiliário, de energia ou de frotas — ganha tempo de frente.