A prévia da inflação oficial desacelerou para 0,32% em outubro, ficando bem abaixo das projeções do mercado que miravam 0,43%. O dado, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (23), tira pressão imediata sobre os juros, mas esconde uma dinâmica perigosa nos alimentos que exige atenção redobrada de quem gere custos ou investe.
O alívio que veio da conta de luz
A grande responsável pelo resultado mais brando foi a energia elétrica residencial, que caiu 0,89% após a bandeira tarifária passar de amarela para verde. Em setembro, o mesmo item havia subido 7,42%.
Esso efeito “não recorrente” mascara a realidade de outros grupos. Sem o desconto na conta de luz, o índice teria ficado significativamente mais próximo do teto das expectativas.
Para o empresariado, a leitura é clara: a inflação de custos fixos (aluguel, energia, telecom) dá sinais de moderação, mas a variável segue volátil.
O vilão continua na mesa do brasileiro
Alimentação e Bebidas subiu 0,88%, respondendo sozinha por 0,19 ponto percentual do índice total. A alimentação no domicílio acelerou forte: 1,01% contra 0,38% no mês anterior.
O movimento foi puxado por itens de alta sensibilidade climática e logística:
- Tomate: +24,54%
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,80%
Na ponta inversa, cenoura (-10,67%), frutas (-1,37%) e café moído (-1,16%) aliviaram levemente a cesta. Ainda assim, a trajetória de alta dos grãos e hortifrútis pressiona margens de restaurantes, mercados e indústria de alimentos processados.
Transporte e serviços: sinais mistos
O grupo Transportes praticamente estagnou (0,05%), mas esconde uma troca de marcha nos combustíveis. Gasolina (+0,92%), etanol (+2,73%) e diesel (+3,70%) aceleraram, compensados pela queda de 9,24% nas passagens aéreas.
Já Despesas Pessoais subiram 0,55%, impulsionadas por lazer (cinema/teatro +4,30%) e pacotes turísticos (+2,18%). O dado sugere que o consumo discricionário de serviços mantém fôlego, mesmo com juros restritivos.
O mapa regional revela assimetrias relevantes
Dez das onze áreas pesquisadas registraram alta. Belém liderou (+0,76%), pressionada por energia elétrica (+3,71%) e tomate. Curitiba foi a única deflação (-0,27%), beneficiada por queda de 8,05% na taxa de água e esgoto e passagens aéreas mais baratas.
Essa dispersão regional reforça a necessidade de precificação localizada. Negócios com operação nacional não podem usar a média nacional como única referência de reajuste.
O que observar daqui para frente
O IPCA-15 acumulado em 12 meses chegou a 4,62%, ainda acima do teto da meta (4,50%). A desaceleração mensal abre espaço para o Copom manter o ritmo de cortes da Selic, mas o viés de alta nos alimentos in natura e a recomposição dos combustíveis funcionam como gatilhos de risco para novembro.
Fique atento à próxima reunião do Comitê de Política Monetária e ao comportamento da bandeira tarifária de energia. Se a bandeira voltar a amarelar ou vermelha em dezembro, o alívio de outubro se evaporará na mesma velocidade em que chegou.
