Economia

Euro17 pede RJ com R$ 1,7 bi em dívidas: o que espera 5 mil credores agora?

Sede do Grupo Euro17 em São Paulo com gráfico de queda financeira sobreposto
Grupo Euro17 entra com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 1,7 bi em dívidas.

O Grupo Euro17 protocolou pedido de recuperação judicial em 16 de outubro para blindar um passivo de R$ 1,7 bilhão distribuído entre mais de 5.000 credores. A manobra expõe a fragilidade de um modelo que dependia de captação constante para honrar resgates imediatos. O desfecho desse processo vai ditar o destino de milhares de investidores pessoas físicas.

O tamanho do buraco e quem paga a conta

Oito empresas controladas por Ik Cavalcanti Albuquerque entram no processo, incluindo duas securitizadoras responsáveis pela emissão das debêntures. Esses títulos — não registrados na CVM — absorveram R$ 1,28 bilhão de cerca de 4.000 pessoas físicas em 9.393 contratos.

A remuneração prometida girava entre 1,62% e 1,66% ao mês (perto de 21% ao ano). Em 73% dos casos, juros e principal seriam pagos de uma só vez no vencimento, estrutura que exige liquidez constante para não travar.

  • Dívida total: R$ 1,72 bilhão
  • Credores: 5.034
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  • Investidores pessoas físicas: ~4.000
  • Remuneração média: 1,62% a 1,66% a.m.

O “descasamento” que quebrou o caixa

A defesa alega crise financeira, não de modelo: o grupo emprestava a prazos de 12 a 18 meses, mas os investidores podiam pedir resgate a qualquer momento. Esse descompasso funcionava enquanto entrava dinheiro novo — até a confiança ruir.

O gatilho externo foi a liquidação do Banco Master, em meados de 2024. O episódio abalou o apetite do varejo por renda fixa privada. Antes, 30% a 35% dos debenturistas resgatavam no vencimento; hoje, o índice supera 65%.

Números que mostram a sangria

A captação derreteu. Em 2025, a média mensal foi de R$ 41,7 milhões. No primeiro semestre de 2026, caiu para R$ 25,3 milhões. Junho registrou R$ 15,3 milhões — o pior mês desde 2023.

Enquanto isso, vencimentos pesados se aproximam: R$ 1,07 bilhão em debêntures vencem entre julho de 2026 e dezembro de 2027. A projeção é de desembolsos de R$ 74 milhões por mês só no segundo semestre. A empresa estima saída líquida de caixa entre R$ 30 e R$ 40 milhões mensais.

A batalha judicial e o segredo negado

Antes da RJ, o grupo tentou uma tutela cautelar para obter 60 dias de sossego e segredo de Justiça. A juíza Isadora Botti Beraldo Moro negou o sigilo, alegando que a publicidade é regra quando milhares de credores estão envolvidos.

Mesmo com a negativa, credores relatam que o processo segue indisponível no sistema do TJ-SP. Dos 45 debenturistas que já entraram no caso, 34 movem ações individuais com arresto de recursos já autorizado. A briga por informação promete ser o próximo capítulo.

O que vem pela frente para o investidor

O pedido prevê consolidação substancial das oito empresas como devedor único, lista única de credores e suspensão de execuções, bloqueios e penhoras por 180 dias. Também pede que bancos não retenham recebíveis e que serviços essenciais não sejam cortados.

Em paralelo, a empresa iniciou contatos individuais com investidores, priorizando idosos e casos sociais. A promessa é de “reestruturação satisfatória”, mas o patrimônio líquido reportado ao BC em junho era de apenas R$ 1 milhão — contra uma carteira de crédito de R$ 661 mil (ou R$ 720 mil, a depender do critério).

O que observar: a homologação do plano de pagamento, a capacidade real de geração de caixa sem novas captações e a definição do Tribunal sobre a consolidação das empresas. Para quem tem dinheiro travado, a prioridade é monitorar a liberação do acesso aos autos e a assembleia geral de credores que deve ser convocada nos próximos meses.