Economia

Brasil 2026: renda sobe, pobreza cai, mas a conta dos juros explode — o que o próximo presidente herdará

Gráfico mostra renda subindo e pobreza caindo no Brasil, enquanto juros da dívida explodem em 2026
Brasil 2026: ganhos sociais recordes colidem com crise fiscal explosiva herdada pelo próximo presidente

O Brasil chega à eleição de 2026 com um cenário contraditório: indicadores sociais em alta histórica convivem com uma armadilha fiscal que consome recursos a ritmo acelerado. O próximo ocupante do Planalto encontrará desemprego baixo e renda real crescendo, mas terá margem quase zero no Orçamento para investir ou ampliar políticas públicas. A raiz do problema não é nova, mas a velocidade com que os juros da dívida pública avançam torna o ajuste inevitável — e politicamente explosivo.

O paradoxo em números: ganhos sociais, perdas fiscais

Entre 2023 e 2025, o poder de compra dos trabalhadores subiu 5,4% ao ano em média, revertendo queda de 1,4% ao ano no período anterior. A pobreza recuou 8,6 pontos percentuais em três anos, e a extrema pobreza caiu 3 pontos. O desemprego despencou de 8% para 6%, na contramão de EUA e Argentina. O PIB cresceu 3% ao ano, superando tanto a média latino-americana (2,4%) quanto a americana (2,7%). Vendas no varejo e em supermercados avançaram acima de 9% ao ano. O desmatamento na Amazônia caiu pelo quarto ano seguido, para 3.300 km² estimados em 2026.

Enquanto isso, a dívida pública bruta subiu 12 pontos percentuais no governo atual, atingindo 83,4% do PIB. A conta de juros saltou de R$ 260 bilhões para R$ 1,09 trilhão ao ano em valores reais — alta de 320% desde 2008. Hoje, os juros consomem 29,6% do gasto total da União, contra 16,1% em 2008. Em contrapartida, a fatia das despesas primárias (saúde, educação, Previdência, Bolsa Família, funcionalismo) encolheu de 83,9% para 70,4%. Investimentos reais cresceram apenas 14,2% em quase duas décadas.

De onde veio o buraco: a trajetória desde 2008

A deterioração não começou agora. Dados da Análise Macro compilados por Vitor Wilher mostram que o superávit primário médio do setor público consolidado despencou de 3,4% do PIB (2002–2008) para 1,5% (2009–2013), já descontadas receitas extraordinárias. O uso de receitas não recorrentes para maquiar resultados minou a credibilidade das metas fiscais. A partir de 2014, o país deixou de gerar superávits primários, a inflação e o endividamento aceleraram, culminando na maior recessão da história recente e no impeachment de 2016.

Desde dezembro de 2008, a despesa nominal total do governo central (com juros) subiu 128,5% acima da inflação. A primária (sem juros) avançou 91,7%. Mas foram os juros que dispararam: 320% no período. Nelson Marconi, professor da FGV Eaesp, resume: “juros altos e expansão das despesas primárias pressionam as contas e reduzem espaço para investimentos”.

O que o próximo presidente terá de enfrentar

Partindo de um déficit primário estimado em 0,5% do PIB em 2026, o ajuste necessário para estabilizar a dívida supera 2,5 pontos percentuais do PIB — cerca de R$ 320 bilhões, combinando corte de gastos e aumento de receitas. O Brasil precisaria gerar superávits primários efetivos de pelo menos 2% do PIB por vários anos consecutivos, algo que não ocorre há muito tempo.

O debate eleitoral, porém, caminha no sentido inverso. Estimativas de Roberto Secemski (Barclays) apontam que medidas e promessas recentes do governo podem custar mais de R$ 100 bilhões nos próximos anos. Só em 2027, ampliações de benefícios sociais, subsídios a combustíveis, expansão do Pé-de-Meia e apoios a microempreendedores adicionariam mais de R$ 40 bilhões às despesas ou reduziriam receitas.

  • Lula (PT): já classificou como “babaquice” a necessidade de voltar a fazer superávits fiscais.
  • Flávio Bolsonaro (PL): promete mais gastos na campanha, embora sua equipe, nos bastidores, admita ajuste equivalente a 2% do PIB (R$ 250 bilhões).

O que os economistas defendem — e o que está em jogo

Marconi argumenta que o ajuste é inevitável, mas sua composição será decisiva. Defende reorganizar gastos sem sacrificar investimentos, infraestrutura e políticas de desenvolvimento. Aponta também a necessidade de rever incentivos tributários e enfrentar pressões estruturais, como as previdenciárias — a reforma de 2019 foi importante, mas não estancou o crescimento acelerado dessa despesa. “O desafio não é simplesmente cortar gastos, mas melhorar sua composição e abrir espaço para o crescimento”, afirma.

O que observar daqui para frente

Quem vencer a eleição herdará uma equação de três variáveis: manter os ganhos de renda e emprego, conter a trajetória explosiva da dívida e reativar investimentos públicos. Qualquer combinação exige escolhas duras — e nenhuma delas cabe em slogans de campanha. O primeiro sinal virá na montagem da equipe econômica e no envio do projeto de lei orçamentária de 2027. Se o novo governo não apresentar, nos primeiros 100 dias, um plano crível de convergência para superávits primários sustentáveis, o mercado cobrará a conta via juros ainda mais altos, fechando ainda mais o espaço fiscal. A janela para agir sem crise aguda é estreita; o custo da hesitação será pago em poder de compra, emprego e capacidade de investimento do Estado.