A Sanepar, estatal paranaense de saneamento, anunciou uma guinada estratégica: quer deixar de ser uma empresa regional para disputar contratos em todo o território nacional. O CEO Wilson Bley confirmou a intenção nesta quarta-feira (21), em São Paulo, e não descartou nem mesmo uma aliança com a gigante Sabesp.
O movimento tem números agressivos por trás: R$ 13 bilhões em investimentos programados até 2030 e a meta de antecipar a universalização do esgoto para 2029 — quatro anos antes do prazo legal. Mas há um detalhe que muda tudo para o investidor atento.
Por que a pressa em sair do Paraná?
A companhia atende hoje 344 municípios paranaenses e apenas um em Santa Catarina. A base acionária é pulverizada: o governo do Estado detém 20% e nenhum outro acionista passa de 3%. Essa estrutura dá liberdade para buscar consórcios sem abrir mão do controle — a palavra-chave do plano.
“Não posso fazer investimento em outros lugares em detrimento do Paraná. Por isso, sempre consórcios”, disse Bley. A tradução prática: a Sanepar entra como operadora minoritária, leva expertise e receita, mas divide o risco e o capex.
As parcerias que já estão no papel
Dois acordos internacionais dão musculatura à estratégia:
- Acciona (Espanha): memorando de entendimento assinado em 2024 para disputar concorrências públicas em conjunto.
- GSInima (Espanha): parceria firmada nesta quarta na Fenasan para água de reuso e saneamento industrial — o foco é vender água tratada de esgoto para indústrias, preservando a potável.
E a Sabesp? “Por que não fazemos uma parceria? Temos essa possibilidade”, admitiu o CEO. O mercado, segundo ele, “teve um boom e agora entrou numa fase um pouco mais calma” — o que pode abrir janelas de negociação.
Onde está o dinheiro (e onde ele pode virar lucro)
A conta é direta: cada ponto percentual extra no tratamento de esgoto equivale a R$ 1 bilhão em receita adicional. Hoje a cobertura está em 84%; a meta é 90% em 2029. O plano de R$ 13 bilhões até 2030 é o motor dessa conta.
Mas há vetores de receita menos óbvios que merecem a atenção de quem analisa o balanço:
- Mercado de carbono: o tratamento de esgoto responde por 93% das emissões da empresa (inventário 2024), majoritariamente óxido nitroso. A Sanepar estuda monetizar a redução dessas emissões.
- Infraestrutura de fibra óptica: 110 mil quilômetros de rede subterrânea que podem ser alugados para operadoras de telecom.
- Água de reuso industrial: margem potencialmente superior à do abastecimento residencial regulado.
O balanço que esconde o resultado operacional
No segundo trimestre de 2026, a receita líquida foi de R$ 1,9 bilhão — alta de 11,5% na comparação anual. No semestre, somou R$ 3,85 bilhões. O prejuízo contábil de R$ 505,2 milhões no trimestre, porém, distorce a leitura: ele decorre de provisão de R$ 953 milhões ligada a uma decisão regulatória sobre repasse de precatórios aos consumidores.
Sem esse efeito não recorrente, o lucro teria sido de R$ 447 milhões. A regra interna define que 75% dos recursos de novos negócios vão para redução tarifária e 25% ficam com a companhia — um limitador de alavancagem de lucro, mas redutor de risco regulatório.
Privatização: carta na manga ou distração?
O governador eleito Sergio Moro (PL) já defendeu a privatização no passado. Bley, contudo, adota tom pragmático: “Trabalhamos de forma mercadológica e não ideológica. Se for necessária a privatização para alcançar esses resultados, quem sabe seja esse o caminho. Mas esse não é o nosso caminho.”
A estrutura de economia mista com pulverização acionária já permite captação de capital e governança de mercado. A privatização seria um evento de liquidez, não uma condição operacional.
O que observar daqui para frente
Três gatilhos podem reprecificar o ativo nos próximos trimestres: (1) assinatura do primeiro grande consórcio interestadual — o memo com a Acciona ainda não virou contrato; (2) evolução concreta do projeto de fibra óptica, que transforma ativo ocioso em receita recorrente; (3) definição regulatória sobre o mercado de carbono no saneamento, que pode criar uma nova linha de receita sem capex adicional.
Enquanto o mercado debate se a Sanepar será privatizada, a empresa está montando, silenciosamente, uma plataforma nacional de saneamento industrial e de reuso. Quem chega primeiro nos consórcios leva a expertise — e a receita — para casa.
