Economia

Brasil armazena só 16% na fazenda: o gargalo que vira inflação no prato

Silos de grãos em fazenda brasileira com capacidade limitada de armazenagem
Brasil armazena apenas 16% da safra na fazenda, gerando déficit de 40% que impacta preços

O Brasil produz safras recordes, mas guarda apenas 16% do grão dentro da porteira. O déficit de armazenagem saltou para 40% e o custo dessa estrutura ausente chega direto à mesa do consumidor — especialmente no bolso de quem ganha menos. Por que a capacidade parou no tempo enquanto a produção disparou?

O abismo entre colher e guardar

Segundo Renato Arroyo, CFO da Kepler Weber, o país tem hoje capacidade para estocar apenas 60% do que produz. Em um cenário uniforme, faltam silos para 40% da safra. Para comparar: os Estados Unidos operam com 120% de capacidade ociosa e a Europa gira em torno de 100%.

O retrato fica mais crítico na origem. Só 16% da produção fica na fazenda — um déficit de 84% na ponta. Na Argentina, o índice sobe para 45%; no Canadá e nos EUA, varia entre 60% e 80%. Tradings e cooperativas amenizam o buraco, mas não resolvem a raiz do problema.

Mato Grosso e Matopiba: o epicentro do caos logístico

A produção migrou do Sul para o Centro-Oeste e para a fronteira do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). A armazenagem não acompanhou a velocidade dessa expansão. O resultado são picos de colheita concentrados entre janeiro e março (soja) e meses depois (milho segunda safra).

Sem silo próprio, o produtor transforma caminhão em depósito móvel. A corrida para escoar a safra dispara o frete e expõe o grão a intempéries. Arroyo resume: “O produtor precisa decidir vender rápido. Ele diz que está produzindo e não tem onde guardar. Precisa despachar”.

Caminhão não é silo: a conta oculta da pressa

A pressa gera dois efeitos diretos no preço final:

  • Frete explosivo: a demanda súbita por transporte eleva o custo logístico, repassado automaticamente ao produto.
  • Perda de qualidade: grãos expostos ao tempo ou amontoados em caminhões perdem valor comercial — o que o consultor Carlos Cogo estima em R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões por ano.

Essa “inflação de armazenagem” pesa proporcionalmente mais na renda das famílias de menor poder aquisitivo, que destinam fatia maior do orçamento à alimentação.

Uma “boca de jacaré” aberta em dez anos

O crescimento da produção supera 10% ao ano (média ponderada na última década). A capacidade de armazenagem avançou apenas 3%. Em 2016, o déficit era de 10%; hoje, quadruplicou. Arroyo classifica a divergência como uma “boca de jacaré” que só se alarga.

Para o executivo, faltou política de Estado. “O custo de não dar crédito ou de ser burocrático na concessão volta para o país via inflação”, afirma. Ele defende juros de um dígito e prazos de 5 a 10 anos para financiamento de silos — condições que o Plano Safra atual não oferece sozinho.

O mandato de dois anos: automação e caixa líquido

Reeleito para o ciclo 2026-2028, Arroyo traça três frentes: crescimento, inovação de produto e automação. A meta é reduzir a dependência de mão de obra, dor comum a todo o setor. A Procer, unidade de tecnologia da casa, já responde por 15% da receita com soluções lançadas nos últimos cinco anos.

Mesmo em cenário adverso, a companhia fechou o segundo trimestre com caixa líquido (mais caixa que dívida) e manteve remuneração aos acionistas. O sinal é de solidez, mas o executivo admite: “Continuar desempenhando e trabalhando nesse cenário difícil” é o dia a dia.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam se o gargalo fecha ou explode: a criação de uma política nacional de armazenagem com subsídios e crédito barato; a velocidade de expansão de silos nas fronteiras agrícolas (Mato Grosso e Matopiba); e a adoção de automação para driblar a escassez de mão de obra. Sem elas, a safra recorde segue virando prejuízo logístico — e inflação no supermercado.