A arrecadação federal bateu R$ 239,4 bilhões em setembro, maior valor para o mês em 32 anos de série histórica. O salto real de 5,6% sobre 2023 carrega um detalhe que poucos comentam: a dependência de receitas extraordinárias para fechar as contas do próximo ano.
O número impressiona, mas a composição desse recorde acende um alerta para quem planeja investimentos ou gere negócios no Brasil. Entender de onde vem esse dinheiro é mais importante que o total em si.
O motor por trás do recorde: petróleo e caneta
Dois pilares sustentam essa alta. O primeiro é externo: a cotação do petróleo, turbinada por tensões geopolíticas, inflou royalties e participações especiais. O segundo é decisão interna: a sequência de aumentos de tributos iniciada em 2023 segue produzindo efeito cheio no caixa.
Não há mágica. A economia cresceu, sim, mas a fatia “política” da arrecadação — aquela que depende de lei, não de PIB — ganhou peso desproporcional.
A lista que todo empresário deveria decorar
Desde o início do terceiro mandato, o governo acionou múltiplas alavancas tributárias. O impacto acumulado explica boa parte do superávit de arrecadação anunciado ontem:
- Tributação de fundos exclusivos e offshores (alta renda/exterior);
- Novas regras para subvenções estaduais (incentivos de ICMS);
- Reoneração dos combustíveis mantida desde 2023;
- Retomada gradual da tributação sobre a folha de salários;
- Fim dos benefícios do Perse (setor de eventos);
- Elevação do IOF sobre crédito e operações de câmbio;
- Aumento da carga sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP).
Somadas, essas medidas transformaram a estrutura de receita. O risco? Muitas são “receitas de estoque” — entram uma vez ou têm teto —, enquanto as despesas são recorrentes.
O acumulado do ano e a armadilha da meta
De janeiro a setembro, o caixa federal somou R$ 2,38 trilhões (valores corrigidos), alta real de 7%. Recorde para o período. Parece folga, mas a meta fiscal de 2026 muda a leitura.
O alvo oficial é superávit de 0,25% do PIB (~R$ 34 bi), com banda que permite até deficit zero. O detalhe técnico: o arcabouço autoriza excluir R$ 57,8 bi de despesas (precatórios, basicamente) do cálculo.
Na prática, mesmo “cumprindo a meta”, o governo projeta rombo real de R$ 23,3 bilhões no ano que vem. Se confirmado, será o terceiro ano seguido de contas no vermelho.
Por que o petróleo mascara a fragilidade estrutural
A taxação extra sobre exportação de petróleo, criada para capturar ganhos de guerra, funcionou como anestésico. Enquanto o barril estiver alto, a arrecadação brilha. Se a commodity cair — cenário possível com desaceleração global —, o buraco fiscal aparece sem avisar.
O crescimento orgânico da economia (PIB, emprego, consumo) responde por parte menor do avanço. A receita tributária “pura” (IRPJ, CSLL, PIS/Cofins) cresceu, mas num ritmo compatível com a atividade, não com o salto total.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam se 2026 fecha no azul ou no vermelho real: preço do petróleo, ritmo de aprovação de novas medidas arrecadatórias no Congresso e comportamento do crédito (base do IOF elevado).
Para o gestor, o sinal é claro: planeje caixa e precificação assumindo que a carga tributária atual é o piso, não o teto. A dependência de receitas voláteis para cobrir gastos fixos historicamente antecipa novos ajustes — quase sempre via aumento de impostos ou redução de benefícios.
Fique atento ao relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas. É ali que o governo revela, com antecedência, se precisará de nova “canetada” tributária para honrar as metas.
