A norueguesa Yara confirmou novos cortes na fabricação de fertilizantes para o último trimestre, pressionada pela escalada do gás natural na Europa. A decisão reduz a oferta global justamente quando os estoques estão apertados. O impacto direto chega ao custo de produção no campo e à inflação dos alimentos nos próximos anos.
O gatilho: gás acima do teto
O gás natural não é apenas energia para as fábricas; é a matéria-prima base da amônia. Com a cotação disparando no quarto trimestre, a margem das plantas europeias virou negativa. O CEO Svein Tore Holsether admitiu que os cortes atuais superam os 150 mil toneladas de amônia e 115 mil toneladas de produtos acabados paralisados entre julho e setembro.
No acumulado de 2024, a produção própria de amônia já caiu 11%. A unidade de Ferrara, na Itália, concentra a maior parte das paradas.
Conta bilionária no balanço
A conta do gás caro já tem data e valor para bater no resultado. A Yara projeta um aumento de custos de US$ 450 milhões (cerca de R$ 2,26 bi) no quarto trimestre de 2026 e US$ 445 milhões (R$ 2,24 bi) no primeiro trimestre de 2027, na comparação anual.
O lucro ajustado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) do terceiro trimestre ficou em US$ 675 milhões (R$ 3,39 bi). O número veio 10% abaixo do consenso de mercado, reflexo direto da matéria-prima cara e da demanda fraca no período.
Efeito dominó: importação e logística
Com as fábricas europeias ociosas, a dependência de amônia importada explode. Cerca de um terço do fluxo mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Hormuz. A rota enfrenta instabilidade geopolítica desde o início do conflito no Oriente Médio, encarecendo o frete e alongando prazos de entrega.
Esse cenário cria um círculo vicioso:
- Menos produção local na Europa;
- Mais compras no mercado spot internacional;
- Frete marítimo pressionado por riscos de rota;
- Preço final ao agricultor em alta sustentada.
Projeção da FAO: alimentos caros até 2027
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que a inflação global de alimentos deve acelerar e persistir até boa parte de 2027. A combinação de custos logísticos elevados e insumos agrícolas caros é o motor dessa projeção.
Para o produtor rural, a equação é simples: margem comprimida entre custo de insumo e preço da commodity. Para o investidor, o sinal é de volatilidade prolongada nas ações do setor e nas cotações de grãos.
O que observar daqui para frente
A Yara sinalizou que, se os preços do gás permanecerem no patamar atual, a estratégia será aumentar a compra de amônia de fora da Europa. Isso desloca o risco cambial e logístico para a cadeia de suprimentos. Acompanhe dois indicadores nas próximas semanas: a cotação do gás TTF (hub europeu) e os prêmios de frete no Estreito de Hormuz. Ambos ditam o ritmo da normalização — ou do agravamento — da oferta global de fertilizantes.
