O dólar amanheceu em alta e os juros futuros abriram a quinta-feira (22) pressionados, enquanto a Bolsa ensaia um recuo tímido. O motivo é único: a pesquisa Datafolha desta noite pode reescrever o cenário fiscal para os próximos anos. Até lá, o mercado opera no escuro.
A moeda norte-americana subia 0,20% por volta das 10h, cotada a R$ 5,051. Na curva de juros, o DI para 2028 avançava 9 pontos-base, a 12,865%, e o contrato para 2030 subia 10 pontos-base, para 12,675%. O Ibovespa, por sua vez, cedia 0,26%, aos 205.943 pontos, mas o destaque negativo ficava por conta de um nome pesado: WEG.
O gatilho político que travou os negócios
O empate técnico mostrado pela Quaest na véspera — 45% a 44% dentro da margem de erro — tirou o conforto de quem apostava numa vitória clara no segundo turno. A expectativa de alternância de poder, associada a um ajuste fiscal mais duro, foi o motor da alta de 1,57% do Ibovespa no pregão posterior ao primeiro turno.
Agora, a narrativa muda. Se o Datafolha confirmar a disputa voto a voto, a “trade eleitoral” perde fôlego. Analistas ouvidos pelo mercado afirmam que a simples possibilidade de manutenção da política econômica atual devolve o prêmio de risco à curva de juros e ao câmbio.
- Dólar: +0,20% (R$ 5,051) — busca por proteção a 3 dias do 2º turno.
- DI Jan/28: 12,865% (+9 bps) — prêmio de risco fiscal de volta.
- Ibovespa: -0,26% (205.943 pts) — realização após romper 200 mil pontos.
- Petróleo (Brent): +1,02% (US$ 109,90) — tensão no Oriente Médio pressiona inflação.
WEG: quando “caro” não perdoa execução
O tombo de 7,33% das ações da WEG (a R$ 45,21) não foi por resultado ruim, mas por expectativa frustrada. Negociada a cerca de 30 vezes o lucro, a empresa precisa entregar crescimento e margens excepcionais. O terceiro trimestre mostrou o contrário.
A receita internacional cresceu quase 15% em dólares, mas apenas 8% em reais — o câmbio comeu a conversão. Some-se a isso o cobre mais caro, tarifas nos EUA e novas fábricas ainda ganhando escala. O resultado: rentabilidade pressionada e rotação de capital para papéis sensíveis a juros e consumo interno.
Especialistas resumem: a WEG servia como hedge cambial nas carteiras. Com a Bolsa subindo por razões domésticas, a proteção virou lastro e o papel saiu do radar.
Lá fora, o alívio vem da tecnologia
Enquanto o Brasil segura a respiração, Wall Street comemora. O Nasdaq saltou 1,05% puxado por balanços acima do consenso. A SpaceX lucrou US$ 4 bilhões — o dobro do esperado — e a Super Micro também brilhou. No lado oposto, a Netflix caiu mais de 5% após guiar o próximo trimestre abaixo das projeções.
Os Treasuries mal se moveram: o título de 10 anos rende 5,123%. O FedWatch aponta 85% de chance de manutenção dos juros americanos na reunião de 27 e 28 de outubro, adiando apostas de alta para dezembro.
O que observar daqui para frente
A divulgação do Datafolha às 19h é o evento binário da semana. Um cenário de empate mantém o dólar acima de R$ 5,05 e a curva inclinada. Qualquer indício de vantagem consolidada para um dos lados dispara movimento direcional forte — para cima ou para baixo.
Para o investidor, a lição da WEG vale ouro: valuation esticado não perdoa execução mediana, mesmo em empresas de qualidade. Já no macro, a combinação de petróleo a US$ 110 e incerteza fiscal mantém o Banco Central em alerta. A ata do Copom e o relatório Focus da próxima semana dirão se a Selic terminal precisa subir mais um degrau.
