Senadores da base governista e da oposição uniram forças para exigir a saída do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo Spalding. O motivo: uma investigação administrativa sobre o ueno bank, instituição que ele comandou até agosto de 2023 e que hoje administra até US$ 850 milhões em recursos públicos.
A pressão coloca em xeque a credibilidade regulatória que ajudou o país a conquistar grau de investimento e atrair capital estrangeiro — boa parte dele brasileiro. Mas o que está por trás do crescimento explosivo do banco digital?
O fio que puxou o novelo
Tudo começou quando um relatório do próprio BC enviado ao Senado este mês tentou esclarecer empréstimos do ueno a empresas ligadas ao seu grupo controlador. Em vez de acalmar, o documento gerou mais desconfiança. A Associação de Bancos do Paraguai — que representa 14 instituições, incluindo o Itaú — classificou a resposta como “incompleta”.
Na semana passada, a Fitch Ratings alterou a perspectiva dos títulos globais do ueno de estável para negativa. O movimento sinaliza que o mercado já precifica risco elevado.
Vínculos que incomodam
O caso ganhou contorno político pela proximidade entre as partes:
- Carlos Carvallo presidiu o ueno bank de 2021 a agosto de 2023, quando assumiu o BC.
- Santiago Peña, presidente do Paraguai, foi sócio do grupo controlador até março de 2025.
O ueno afirma que Peña nunca teve vínculo direto com o banco — nem como acionista nem investidor. O BC sustenta que Carvallo se declarou impedido de atuar em decisões relacionadas à instituição. Ainda assim, a percepção de conflito de interesses persiste.
Do nicho ao centro do sistema
Em poucos anos, o ueno saltou de fintech local para banco de médio porte, com 3 milhões de clientes e ativos comparáveis a plataformas como Nubank e Monzo. Esse crescimento súbito é o foco da investigação administrativa em andamento.
Parlamentares querem saber se a supervisão foi branda demais. “As pessoas do Banco Central perderam a credibilidade”, disse o senador governista Gustavo Leite. O oposicionista Rafael Filizzola alertou que o sistema financeiro está “sofrendo”.
O que está em jogo para o investidor
O Paraguai vem de vitórias recentes: grau de investimento pela Moody’s (2024) e S&P Global (2023), projeção do FMI de 4,5% de crescimento neste ano — quase o dobro da média regional. A estabilidade macroeconômica, baseada na exportação de grãos, é o ativo mais valioso do país.
Peña classificou a crise como “transbordamento” de questão técnica para arena política, causando “dano tremendo à imagem”. A disputa interna no Partido Colorado pela indicação presidencial de 2028 adiciona combustível.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes merecem atenção: a conclusão da investigação administrativa sobre o ueno, a resposta do BC às cobranças da associação bancária e a eventual nomeação de novo comando na autoridade monetária. Qualquer sinal de interferência política na supervisão bancária pode reverter o prêmio de risco conquistado a duras penas. Para quem tem exposição ao país — seja em títulos soberanos, ações de bancos locais ou operações de trade —, a transparência do processo regulatório será o termômetro da confiança.
