O advogado Willer Tomaz movimentou R$ 6,3 bilhões em casas de apostas desde a regulamentação do setor — e 99,98% desse volume concentrou-se em cassinos online e no “jogo do tigrinho”. O número impressiona, mas esconde uma mecânica que a Polícia Federal agora tenta decifrar.
Segundo dados do Ministério da Fazenda, Tomaz foi o maior apostador do Brasil em 2025, com R$ 5 bilhões girados, 60% à frente do segundo colocado. Em 2026, já somam-se mais R$ 1,3 bilhão. A defesa sustenta que depósitos reais foram de R$ 326 milhões e saques, R$ 234 milhões. A diferença? Dinheiro que entra, vira prêmio e volta à mesa na mesma hora.
Como um único nome domina o ranking nacional
A nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas revela a assimetria: um único CPF respondeu por volumes que superam casas de apostas inteiras. O advogado, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL), operou quase exclusivamente na Blaze — 99,2% do total. Sportingbet e 7K responderam por frações irrelevantes.
O detalhe que chama a atenção dos investigadores: nas apostas esportivas, onde o risco é calculado de forma distinta, Tomaz colocou apenas R$ 819,7 mil. Todo o resto fluiu para roletas, blackjack e caça-níqueis virtuais.
O que a PF procura nas engrenagens da Blaze
A suspeita central não é o jogo em si, mas a possibilidade de as plataformas servirem de lavanderia. A Polícia Federal apura se recursos de origem ilícita — inclusive do PCC, segundo linha de investigação sobre a 7K — entraram no sistema e saíram “limpos” na forma de prêmios declarados.
- Depósitos totais declarados pela defesa: R$ 326 milhões
- Saques realizados: R$ 234 milhões
- Saldo líquido negativo: R$ 92 milhões
- Volume contabilizado (churn): R$ 6,33 bilhões
O Ministério da Fazenda abriu processo administrativo contra a Blaze, com multa potencial de R$ 2 bilhões. O relatório aponta falhas graves: a casa não monitorava clientes de altíssimo volume, ignorava alertas do Coaf e classificava Tomaz como “risco médio” — apesar de ser o maior depositante e sacador do país em 2025.
A teia que liga advogado, senador e offshores
A revista Piauí revelou estrutura societária indireta unindo Tomaz e Flávio Bolsonaro na Best Bet, via empresas no exterior e contas compartilhadas. A holding do advogado pagou voos entre Portugal e França para o senador em 2025. Ambos negam irregularidades e atribuem a proximidade a amizade pessoal.
Paralelamente, Tomaz é alvo de inquérito sobre fraudes no INSS. A PF encontrou sala secreta para guardar dinheiro em hangar que ele utilizava — indício que reforça a hipótese de operações com espécie fora do radar bancário.
O que observar nos próximos capítulos
A PGR ainda não se manifestou sobre os autos remetidos ao STF. Se houver conversão em inquérito, o senador passa a ter foro privilegiado — o que altera o ritmo e a publicidade das apurações. Do lado regulatório, a Blaze responde a processo que pode resultar em cassação de licença ou multa bilionária.
Para o mercado, o caso expõe a fragilidade dos controles de know your customer e anti-lavagem nas plataformas licenciadas. Operadores que não sinalizarem volumes atípicos em tempo real tendem a enfrentar sanções crescentes. Investidores do setor devem monitorar: a próxima rodada de fiscalização deve mirar justamente a lacuna entre volume contabilizado e entradas reais de caixa.
