Justiça

O banqueiro, as festas e a sombra de Epstein: o que as mensagens revelam

Daniel Vorcaro, banqueiro investigado, em foto de arquivo com expressão séria
Banqueiro Daniel Vorcaro, alvo de investigação da PF por mensagens comparando sua situação à de Jeffrey Epstein.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal expõem diálogos em que o banqueiro e um associado comparam sua situação à do criminoso sexual Jeffrey Epstein — com a frase “o jeff tá amador demais”. O material faz parte de uma investigação que já resultou na prisão preventiva do empresário e abriu uma nova frente de apuração sobre suspeitas de exploração sexual de mulheres.

O conteúdo das conversas, obtido pela BBC News Brasil, vai além da piada de mau gosto: detalha pagamentos por presença em eventos, valores adicionais por interações íntimas, propostas de compra de agências de modelos e discussões sobre vistos para estrangeiras. A defesa nega todas as acusações.

A conversa que virou peça-chave

Em 19 de dezembro de 2023, Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro comentavam uma publicação do investidor Vladimir Timerman, que escreveu em rede social: “tenho convicção de que encontrei o Jeffrey Epstein brasileiro”. A postagem não citava nomes.

Vorcaro respondeu com “Jeff epstein” e “Carapuça caiu kkkk”. Depois, disse ter percebido que o alvo era outro. Carneiro retrucou: “Essa aí não tem sua cara pq o jeff tá amador demais”. O banqueiro reagiu com novo “Kkkk”.

Carneiro afirmou à reportagem ser amigo de Vorcaro, mas nunca ter trabalhado para ele. Disse não lembrar do contexto exato, apenas que se tratava de uma disputa com Timerman. Vorcaro está preso desde 4 de março de 2025.

Festas, pagamentos e a frase “fazia parte do business”

Outros diálogos, de agosto de 2025, mostram Vorcaro explicando à então namorada, Martha Graeff, por que seguia certas mulheres nas redes sociais: “Fazia parte do meu business. Nunca te escondi o que fiz e pq fiz. Fiz festa com 300 desse tipo. Não quer dizer que fiquei.”

Registros indicam valores padronizados para eventos:

  • Presença: R$ 2.000
  • Se ficar com alguém: R$ 10.000

Em outubro de 2024, o banqueiro encaminhou essas condições a uma interlocutora. Em fevereiro de 2025, ela confirmou recebimento após discutir valores relativos a um encontro.

O nome de um ministro do STF aparece em cobrança

Mensagens de 7 de março de 2025, também obtidas pela BBC, mostram uma mulher cobrando Vorcaro em nome de uma amiga: “Ela disse que ficou com o kassio!”. O banqueiro respondeu: “Me manda aqui” e “Dados e valor”.

O portal Metrópoles associou “kassio” ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF. A assessoria do ministro negou qualquer contato com Vorcaro, pedidos, votos a seu favor ou autorização a terceiros para falar em seu nome. Informou ainda que ele votou pela manutenção da prisão do banqueiro.

Agências de modelos: investimento ou fachada?

Conversas com o empresário Tiago Polo, entre outubro e novembro de 2023, revelam sondagens para investir em agências como Ford Models e Allure. Polo dizia ter sido procurado para intermediar, com pedido de sigilo sobre o nome de Vorcaro nas etapas iniciais.

Trecho chama atenção: Polo escreveu que “a ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”. Vorcaro respondeu: “Vamos na top, Ford” e perguntou se haveria venda de participação.

Sobre a Allure, Polo propôs entrada como investidor ou compra de metade, mantendo o responsável na operação. Vorcaro topou: “Cara, vamos fazer. Vou colocar um fundo. Senao nao tem como eu por a grana.” Contratos teriam sido enviados, mas não há prova de conclusão do negócio.

A Ford Models Brasil negou qualquer contato com Vorcaro, Polo ou representantes. Disse não estar à venda e atuar exclusivamente em moda e publicidade. A Allure afirmou que seu responsável, Felipe Nisti, conversou com Polo sobre investimento para crescimento da agência, negou conhecimento ou contato direto com Vorcaro e qualquer relação societária ou comercial.

Polo declarou à BBC que sua atuação foi profissional e pontual, sem recrutamento de mulheres para encontros sexuais. Disse reproduzir fala de terceiro sobre “ajustar as meninas” e que as tratativas eram comerciais, sem ligação com festas.

Vistos, contratações e a dúvida sobre o destino

Em fevereiro de 2024, Vorcaro escreveu a um interlocutor: “Vamos tirar visto famiglia”, “Contratar todas allure” e “E marca entrevista”. A resposta: “Deixa comigo.”

O diálogo não identifica as mulheres, não esclarece o destino dos vistos nem comprova execução. A Allure nega relação contratual com o banqueiro.

O que a lei considera exploração sexual

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam a linha que separa prostituição autônoma de crime:

  • Recrutamento: como as mulheres foram abordadas e o que foi prometido
  • Autonomia: liberdade para recusar encontros, definir clientes, preços e ganhos
  • Controle: quem gerenciava dinheiro, deslocamentos, documentos
  • Vulnerabilidade: se houve aproveitamento de situação migratória ou financeira precária

Carlos H. Borlido Haddad e Lívia Miraglia, da UFMG, enfatizam que a vulnerabilidade por si só não configura crime — é preciso demonstrar aproveitamento intencional. Maurício Krepsky, auditor fiscal do trabalho, acrescenta que recrutamento de migrantes em situação precária para trabalho sexual pode configurar tráfico de pessoas ou trabalho análogo à escravidão, mas reforça: trabalho sexual voluntário de adultos é lícito e protegido por normas trabalhistas.

O que observar daqui para frente

A investigação preliminar sobre exploração sexual corre em paralelo ao processo por supostas fraudes no Banco Master. A PF analisa se há conexão entre o esquema de festas, os pagamentos registrados, as tentativas de compra de agências e a emissão de vistos.

Dois pontos merecem atenção nas próximas semanas: a eventual quebra de sigilo fiscal e bancário para rastrear a origem dos recursos usados nos pagamentos, e o depoimento das mulheres citadas nas mensagens — que podem confirmar ou refutar a existência de coação, promessas falsas ou retenção de documentos. A defesa de Vorcaro nega veementemente qualquer exploração ou desrespeito a mulheres, atribuindo a narrativa a uma “falsa versão” dos fatos.