Economia

IBGE apaga menção a drogas do PIB: o que muda na conta do Brasil até 2028

Logotipo do IBGE sobre gráfico de PIB do Brasil com anotação metodológica
IBGE remove menção ao comércio de drogas da metodologia do PIB brasileiro

O IBGE retirou da nota metodológica mais recente qualquer referência à estimativa do comércio de drogas no cálculo do Produto Interno Bruto. A versão anterior, de outubro de 2025, previa essa inclusão seguindo padrões internacionais; a atual, de setembro de 2026, silencia sobre o tema.

Especialistas divergem sobre o impacto real, mas a mudança reacende o debate: até onde a estatística oficial deve ir para retratar a economia real?

O que a nota antiga dizia e por que sumiu

No primeiro comunicado sobre a revisão das Contas Nacionais, o instituto listava explicitamente a “estimativa da comercialização de drogas” entre as novidades da nova base. Quase um ano depois, o texto foi reescrito de forma mais enxuta e a menção desapareceu.

O IBGE alega rotina: notas metodológicas são atualizadas a partir de comentários de usuários enviados para contas.nacionais@ibge.gov.br. Cronogramas, bases de dados e ajustes técnicos justificariam a nova versão.

Oficialmente, o órgão não confirma nem nega se a estimativa entrará no PIB final. A previsão de divulgação dos primeiros resultados da nova série permanece para 2028.

Por que manuais internacionais recomendam contar o ilícito

O Sistema de Contas Nacionais da ONU (SNA) e o Eurostat determinam que toda atividade econômica — formal, informal ou ilegal — deve ser mensurada para compor a renda e a produção de um país. A lógica é estatística, não moral.

  • Reino Unido inclui drogas ilícitas no PIB desde 2014.
  • França, Alemanha, Suécia, Hungria e outros países da UE seguem a norma desde meados da década passada.
  • O regulamento europeu (ESA 2010) tornou a prática obrigatória para o bloco.

No Brasil, discussões técnicas começaram em 2019 e um teste de metodologia ocorreu em 2021. Ainda não há definição pública sobre como a estimativa seria construída.

O ruído político e a troca de comando no IBGE

A retirada da menção coincidiu com onda de críticas nas redes sociais, sobretudo de perfis opositores ao governo federal, que usaram o tema para atacar a gestão na campanha eleitoral. Paralelamente, a direção do instituto — presidida por Marcio Pochmann — exonerou a coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis, no primeiro semestre de 2026. Ricardo Montes de Moraes assumiu o posto.

A troca gerou atritos internos entre servidores e a direção. Para analistas, a combinação de ruído externo e instabilidade interna pode ter influenciado a redação mais cautelosa da nota.

Como se mede um mercado invisível

Roberto Olinto, ex-presidente do IBGE, explica que não basta uma única fonte. Seriam necessários cruzamentos de:

  • Registros de apreensões da Polícia Federal e da Receita Federal.
  • Dados de inteligência financeira e fluxos de caixa suspeitos.
  • Estudos acadêmicos e relatórios internacionais sobre rotas e volumes.

“Tem de misturar registros ou estatísticas de fontes diferenciadas para ter um bom resultado”, resume Olinto. O IBGE promete seminários públicos para detalhar a metodologia nas próximas etapas.

Visão do mercado: omissão aumenta incerteza

Para Rodolpho Sartori, economista da Buysidebrazil, mensurar atividades ilícitas é correto do ponto de vista contábil. “Ilegalidade não é ausência de atividade econômica nem de circulação de recursos.”

Ele critica, porém, a falta de clareza na condução do processo. “O IBGE deveria ser mais transparente para evitar ruídos e incertezas que contaminam a confiança na série histórica.”

O que observar daqui para frente

A nova série de Contas Nacionais só estreia em 2028. Até lá, outras notas metodológicas serão publicadas — já estão previstos detalhamentos sobre instituições sem fins lucrativos e atividades financeiras. Acompanhe o calendário de seminários do IBGE e as atualizações no endereço oficial das Contas Nacionais. A decisão final sobre incluir ou não o comércio de drogas será um teste de aderência do Brasil aos padrões globais e de independência técnica frente a pressões conjunturais.