A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro propôs deixar de repor servidores aposentados e preencher as vagas com inteligência artificial. A ideia, defendida em setembro, voltou à tona esta semana depois de gerar reações negativas de sindicatos. O que ainda não foi dito é quais carreiras seriam atingidas e como a população seria afetada.
A declaração que acendeu o alerta
Em entrevista ao podcast G4 no dia 30 de setembro, Daniella Marques questionou se faria sentido abrir novos concursos sempre que um servidor se aposenta. “Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”, perguntou. A fala sugere uma redução progressiva do quadro funcional sem extinção formal de cargos — basta não repor as vagas.
A economista não apresentou estimativa de quantos postos poderiam ser cortados, nem critérios para definir quais funções seriam automatizadas. Também não detalhou como seria mantida a qualidade do atendimento ao cidadão.
Não foi a primeira vez
A mesma proposta já havia surgido em agosto, em duas ocasiões distintas. No dia 6, durante o programa Pânico, Daniella indagou quantas carreiras administrativas poderiam ser substituídas por tecnologia em cinco ou dez anos. Dias depois, no 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, defendeu a revisão de carreiras operacionais diante de empresários, atrelando o enxugamento do Estado aos avanços da IA.
O discurso evoluiu: de uma pergunta genérica sobre o futuro, passou a um mecanismo concreto — não repor aposentadorias.
O que muda na prática
A diferença entre usar IA como ferramenta de apoio e deixar de contratar pessoas é estrutural. No primeiro caso, servidores ganham agilidade. No segundo, o quadro encolhe e a capacidade de resposta do Estado pode cair, dependendo das áreas atingidas.
- Concursos: menos editais, menos oportunidades de ingresso
- Atendimento: risco de lacunas em serviços que exigem análise humana
- Responsabilidade: quem responde por erros de sistemas automatizados?
A Constituição exige concurso para cargos efetivos, mas não obriga a reposição automática de toda vaga aberta por aposentadoria. Esse espaço legal é onde a proposta se encaixa.
A reação e a defesa
Em 9 de outubro, o Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Rio (Sisejufe) publicou texto alertando para os riscos da substituição. Nesta segunda-feira (19), de volta ao Pânico, Daniella reclamou de “distorções” e disse que nem todas as carreiras seriam afetadas. Não disse, porém, quais seriam poupadas.
Manteve o argumento central: máquina pública inchada pressiona impostos e achata salários. “Quando é inchaço, ineficiência, coisa perdulária, fica todo mundo ganhando mal”, afirmou. A promessa implícita é que a eficiência permitiria remuneração melhor para carreiras preservadas — quais, continua em aberto.
O que observar daqui para frente
A campanha de Flávio Bolsonaro ainda não informou se a medida integrará programa de governo oficial, quais concursos seriam suspensos ou quantos cargos deixariam de existir. A ausência de parâmetros técnicos — lista de carreiras, cronograma, estudos de impacto — impede avaliar a viabilidade real.
Para quem acompanha a gestão pública ou planeja carreira no setor, o sinal é claro: o debate sobre automação saiu do campo teórico e entrou na pauta eleitoral. Faltam respostas concretas. Sobram perguntas sobre o custo social de um Estado mais magro, mas menos humano.
