Um único cibercriminoso utilizou agentes de inteligência artificial para tentar invadir mais de 1.200 sites em menos de duas semanas, gastando aproximadamente US$ 5.000 no total. A descoberta expõe uma mudança radical: a automação completa de ataques complexos, do reconhecimento à exploração, sem intervenção humana.
O caso foi documentado por Snorre Fagerland, pesquisador da NorForge, que monitorou instâncias expostas da plataforma Cairn — ferramenta de código aberto voltada para resolução de problemas, mas amplamente adotada no submundo do cibercrime. O que ele viu redefine o custo-benefício do crime digital.
Como funciona o “exército de IA” por US$ 50 por alvo
O operador, identificado como falante de chinês, inseriu instruções concisas — menos de 100 caracteres — descrevendo suas táticas preferidas. A partir daí, os agentes assumiram: sondaram vulnerabilidades, mapearam infraestrutura associada, testaram falhas e executaram explorações. Cada invasão bem-sucedida consumiu, em média, 23 horas de processamento autônomo.
A combinação de modelos incluiu o DeepSeek (origem chinesa) e o Claude Code (da Anthropic). O custo estimado por violação concluída: cerca de US$ 50 em tokens. Para comparação, um serviço de teste de intrusão profissional costuma começar na casa dos milhares de dólares.
- Alvos: e-commerces nos EUA, Canadá, Austrália e Japão
- Vítimas confirmadas: Deere, SharkNinja, Cummins e duas empresas menores
- Período: 25 de setembro a 6 de outubro
- Taxa de sucesso: ~100 invasões em 1.200 tentativas
Técnicas que impressionam até veteranos de 30 anos
Fagerland, com quase três décadas de experiência, destacou um caso específico: após não encontrar brechas no aplicativo público de uma grande corporação, os agentes vasculharam registros digitais, localizaram um painel de controle exposto, identificaram uma falha sutil no processamento de dados e, após horas de tentativas, a exploraram para executar comandos maliciosos no servidor.
“Não é simples encontrar soluções desse tipo. Não é coisa de amador”, afirmou o pesquisador. A capacidade de correlacionar ativos dispersos e encadear etapas de exploração era, até pouco tempo, território exclusivo de especialistas humanos.
O ecossistema já opera em escala industrial
Não foi um caso isolado. Outras instâncias do Cairn revelaram:
- Roubo massivo de dados de cartões de crédito
- Tentativa de invasão a uma corretora de criptomoedas
- Uso da ferramenta Cursor (SpaceX) por extorsionistas russos — 7 organizações comprometidas em agosto
- Onda de ataques em setembro: 25 empresas violadas, 600 mil registros de cartões expostos
Fóruns de cibercrime mostram discussões crescentes sobre agentes autônomos, segundo a Bitsight. A barreira de entrada técnica desabou; a supervisão humana, antes considerada indispensável, tornou-se opcional.
Respostas das vítimas e lacunas de visibilidade
A Deere confirmou medidas corretivas e ausência de indícios de acesso a dados sensíveis. A SharkNinja relatou que o alvo era um site de suporte isolado, já contido. A Cummins investiga um possível ataque a site de fornecedor terceirizado. Outras vítimas listadas nos logs do Cairn não responderam.
A Reuters não conseguiu determinar se houve exfiltração de dados nas invasões bem-sucedidas. O autor do Cairn, usuário “le1xia0”, afirmou que a plataforma não foi projetada para fins maliciosos, mas não detalhou controles de uso.
O que observar daqui para frente
A autonomia total dos agentes de IA em cadeias de ataque completas — reconhecimento, varredura, exploração, persistência — elimina a necessidade de operadores qualificados em tempo real. Isso reduz o custo marginal de cada tentativa a centavos e permite campanhas em paralelo massivo.
Para equipes de segurança, o sinal é claro: a superfície de ataque exposta (painéis administrativos, APIs legadas, ambientes de staging) será sondada continuamente por máquinas que não dormem, não erram por fadiga e aprendem com cada falha. Investir em gestão contínua de superfície de ataque e detecção de comportamento anômalo em tempo real deixa de ser diferencial competitivo para virar requisito de sobrevivência.
