Justiça

Fim da marcação em munições: o ‘escudo’ invisível para o crime organizado?

Munições com numeração de lote visível representando rastreabilidade obrigatória ameaçada por projeto de lei
A identificação em munições funciona como 'RG' para rastrear crimes, mas projeto de Flávio Bolsonaro quer acabar com essa obrigatoriedade.

Um projeto de lei do senador Flávio Bolsonaro (PL) propõe acabar com a identificação obrigatória de munições no Brasil, medida que especialistas classificam como um golpe direto na capacidade de investigação da polícia. A proposta retira das balas o “RG” que permite rastrear origem, lote e fabricante — justamente o fio condutor usado para prender traficantes e resolver homicídios.

O debate ganhou destaque no podcast O Assunto, do g1, com o pesquisador Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A consequência imediata, segundo ele, é a criação de uma “caixa preta” que beneficia quem desvia armamento legal para o mercado ilegal.

Como o rastreamento funciona hoje — e por que ele cai

Atualmente, cada cartucho carrega marcas que revelam o fabricante, o ano de produção e o número do lote. Esses dados permitem às forças de segurança mapear o caminho da bala: da fábrica ao comércio legal, até o momento em que ela é encontrada em uma cena de crime ou em apreensões com facções.

Sem essa identificação, a cadeia de custódia se rompe. A polícia perde a capacidade de distinguir se a munição usada em um assassinato saiu de um estoque desviado do Exército, de uma loja legal ou de uma importação irregular.

O desvio que já chega às facções

O problema não é teórico. Reportagem do Fantástico revelou que munições compradas oficialmente pelo Exército foram encontradas em poder do Comando Vermelho. O episódio expõe uma falha crítica: o controle de estoques públicos é falho e a circulação do material, após a saída legal, torna-se invisível sem a marcação no projétil.

O risco aumenta quando se considera o volume de armamento em circulação. Civis compram legalmente, mas parte significativa é desviada por roubo, furto ou venda irregular — alimentando diretamente o arsenal do crime organizado.

Obstáculos que já existem (e que a proposta agrava)

Mesmo com a identificação vigente, a fiscalização esbarra em barreiras burocráticas. Um estudo citado no programa aponta que as polícias estaduais ignoram ou negam 71% dos pedidos de informação sobre armas de fogo. A transparência, portanto, já é baixa; a remoção da marcação física torna a opacidade total.

Outra ferramenta ameaçada é o “banco de DNA” das balas — tecnologia que compara estrias de cano e marcas de percussão para ligar armas a crimes diferentes. Segundo dados do g1, esse sistema já subsidia 9 mil investigações em andamento. Sem a identificação de lote no fundo do estojo, o trabalho pericial perde uma de suas principais referências.

  • 7 em cada 10 homicídios no Brasil (2024) envolveram arma de fogo (Atlas da Violência).
  • Pessoas negras representam 77% das vítimas fatais.
  • Pesquisa Quaest (setembro): 70% dos brasileiros acham que a violência aumentou muito; 66% veem impunidade crescente.

O cenário eleitoral e a PEC da Segurança

A discussão não ocorre no vácuo. Na semana anterior ao episódio, o Senado debateu em plenário a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. O tema virou moeda de troca na campanha, enquanto indicadores mostram que a sensação de insegurança atinge níveis recordes.

Para Uchôa, enfraquecer o rastreamento de munições agora contraria a lógica de qualquer política séria de controle de armas: “Você não controla o que não consegue medir. E não mede o que não consegue identificar”.

O que observar daqui para frente

A tramitação do projeto no Congresso será o termômetro real da disposição política para enfrentar o tráfico de armas. Vale acompanhar se a PEC da Segurança trará mecanismos de transparência para polícias e Forças Armadas — ou se a retirada da identificação de munições será aprovada como gesto simbólico, custando caro em investigações futuras. O “DNA” da bala pode ser a única testemunha que não mente; silenciá-la é um risco que a sociedade pagará com impunidade.