Uma saca de 60 kg de café produzida em Carmo de Minas (MG) foi arrematada por US$ 26.456 (cerca de R$ 134,6 mil) durante o SCAJ 2026, em Tóquio. O valor equivale a mais de R$ 2.240 por quilo e estabelece um novo teto histórico para o grão brasileiro em leilões da Alliance for Coffee Excellence (ACE). Mas o que explica um preço 40% superior ao recorde anterior?
A compra, realizada pela japonesa Snow Beans Coffee na sexta-feira (16), não é um ponto fora da curva isolado. Ela sinaliza uma mudança estrutural na forma como o mercado premium global precifica a origem Brasil.
O grão que vale ouro: variedade e terroir
O recorde pertence à Fazenda Santuário Sul, propriedade da família Pereira Filho na Serra da Mantiqueira. O café leiloado é da variedade Geisha natural, conhecida por perfil sensorial complexo: notas florais de jasmim, toque de mamão papaia e doçura elevada.
Segundo o produtor Luiz Paulo Dias Pereira Filho, a combinação entre genética e microclima foi decisiva. A região de Carmo de Minas oferece amplitude térmica e altitude que alongam a maturação do fruto, concentrando açúcares e precursores de aroma.
- Variedade: Geisha (processamento natural)
- Região: Serra da Mantiqueira, Sul de Minas
- Altitude: Acima de 1.200 metros
- Perfil: Floral, jasmim, mamão papaia, alta doçura
O salto de 40% em oito anos
O marco anterior datava de 2018, quando uma saca atingiu US$ 143 por libra-peso (US$ 18,9 mil no total). O novo patamar de US$ 200/lb representa uma valorização nominal de 40% no intervalo. Em moeda brasileira, o impacto é amplificado pela variação cambial do período.
Para analistas do setor, a quebra de barreira psicológica dos US$ 200/lb reposiciona o Brasil no topo da pirâmide de qualidade, disputando palmo a palmo com origens tradicionais de altos preços como Panamá e Colômbia.
Quatro gerações e a aposta no “sem fronteira”
A trajetória da família Pereira Filho ilustra a transição do commodity para a especialidade. Da quarta geração de cafeicultores, o investimento em cafés de alta pontuação começou nos anos 2000. A visão, nas palavras do próprio produtor, sempre foi tratar o café como “produto sem fronteira”.
A entrada no seleto grupo da ACE — que reúne apenas seis países (Brasil, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua) — exigiu consistência. A Fazenda Santuário Sul acumula prêmios no Cup of Excellence, considerado o “Oscar” do café, credenciando-a para leilões de elite como o de Tóquio.
O que observar daqui para frente
O resultado em Tóquio abre precedentes para negociações futuras. Compradores asiáticos, especialmente japoneses e coreanos, vêm ampliando a participação em lotes “top lot” brasileiros, pressionando referências de preço também no mercado spot de especialidades.
Para o empresário do agro, o recado é claro: a barreira de preço do café brasileiro de alta gama foi rompida. A combinação variedade nobre + terroir diferenciado + rastreabilidade impecável agora acessa patamares antes reservados a origens centro-americanas. O próximo leilão da ACE será o termômetro para saber se o recorde vira novo piso.
