A Companhia Tradicional de Comércio (CTC) chega aos 30 anos com 53 unidades, 1.500 funcionários e uma estatística rara no setor: nenhuma marca encerrada por falha de conceito. O grupo, dono do Original, Pirajá, Bráz e Astor, projeta 15% de crescimento para 2026 após faturar R$ 109,60 por cliente em 4,2 milhões de atendimentos no ano passado.
O que começou como fuga de três executivos estressados virou case de governança e expansão calculada. Mas a receita não está no cardápio — está na forma como a empresa lida com gente e identidade.
Da mesa de bar ao board profissional
Em 1996, Ricardo Garrido, Edgard Costa e Sérgio Camargo se encontravam aos sábados para pedalar e reclamar da multinacional onde trabalhavam. Garrido, aos 24 anos, já dependia de Lexotan para dormir. Juntaram-se a Mário Gorski e Fernando Grinberg, alugaram um armazém em Moema e abriram o Original com um único norte: chope bem tirado e petiscos copiados de botequins tradicionais.
Os cinco sócios se revezavam no balcão. O faturamento de uma casa, porém, não sustentava cinco famílias. Em 1998 nasceu o Pirajá. Vieram depois Bráz, Lanchonete da Cidade, Astor, Ici Brasserie e submarcas como Bráz Elettrica e Bar do Cofre. A empresa completou cinco anos sem nome oficial — a atendente não sabia como atender o telefone. A CTC só foi batizada em 2001.
A virada que trouxe método ao romantismo
O salto de gestão aconteceu em 2014. O fundo 2+capital, de Artur Grynbaum e Miguel Krigsner (fundadores do Grupo Boticário), entrou no capital. Exigiram governança, conselho e executivos de mercado. João Adas, formado pela FGV com OPM em Harvard, entrou como CFO e assumiu o comando em 2020.
“O fundo permitiu que os empreendedores virassem estratégia e a gestão fosse profissionalizada”, resume Adas. “Mas os sócios fundadores mantêm a cultura. O papel deles é indispensável nisso.”
Identidade que dispensa storytelling
Em um setor onde 30% dos negócios fecham antes de dois anos (dados da Abrasel), a CTC aponta dois pilares. O primeiro é o que Garrido chama de “verdade”: cada marca tem identidade própria, perceptível sem explicação. Simone Galante, CEO da Galunion, confirma: “Você entra em cada casa e sabe exatamente onde está. Os ambientes respiram conceito.”
O erro ensinou o valor disso. Em 2018, a Lanchonete da Cidade tentou “rejuvenescer” para competir com hamburguerias industriais. Perdeu a alma. “Mudamos a ponto de perder a identidade. Demos um passo atrás no Higienópolis e a resposta é positiva”, admite Garrido.
Gente: o ativo que não está no balanço
O segundo pilar é carreira. A CTC promove 150 colaboradores por trimestre — 10% do quadro. Um gerente de operações que cuida de dez lojas começou na limpeza. Um diretor veio da cozinha. “Vencida a fase inicial de seis a doze meses, quem passa da arrebentação pensa no longo prazo”, diz Adas.
O desafio é brutal: turnover acima de 70% no setor (Abrasel) e concorrência da gig economy. “Disputamos com Mercado Livre, iFood, Uber, 99, Amazon. O cara decide se trabalha amanhã ou faz sete dias seguidos para grana extra”, explica o CEO. Para 69% dos gestores ouvidos pela Galunion, gestão de pessoas será o maior desafio em 2027.
Expansão sem pressa, mas com rota definida
Com certificação B Corp recém-conquistada, o plano de crescimento acelera. A primeira Bráz de Brasília abre em dezembro na Asa Sul. Belo Horizonte vem na sequência. O Rio de Janeiro, onde a pandemia fechou uma Bráz e um Astor, voltará ao radar — hoje só resta a pizzaria no Jardim Botânico.
“Crescer é apaixonante, mas não podemos descuidar das 53 lojas que temos”, finaliza Garrido. A meta de 15% para 2026 será testada fora do eixo Rio-SP pela primeira vez em três décadas.
O que observar daqui para frente
- Execução em novas praças: Brasília e BH dirão se o modelo replica sem os fundadores no dia a dia.
- Retenção em escala: Manter 10% de promoções trimestrais com 1.500 pessoas exige estrutura de RH que poucos grupos têm.
- Equilíbrio de portfólio: A aposta em “indulgência” (frituras, pizzas) contra tendências healthy será testada em públicos novos.
- Governança pós-investimento: O fundo 2+capital completa 10 anos de sociedade; eventuais movimentos de liquidez podem mudar o ritmo.
Trinta anos depois da primeira bicicleta, a CTC prova que romantismo e planilha não se anulam — se a cultura não for negociável.
