A Meta lançou uma versão dos óculos Ray-Ban inteligentes sem câmera, tentando contornar a rejeição pública que rotulou o dispositivo original de “pervertido”. A novidade mantém funções de áudio e IA, mas remove o olho eletrônico que gerou proibições em pubs, teatros e até uma base naval nuclear no Reino Unido. A grande incógnita permanece: o mercado vai abraçar a privacidade ou a câmera continua sendo o motor da estratégia da big tech?
O estopim da rejeição e a resposta tática
Desde o lançamento de 2023, os óculos com câmera integrada acumularam relatos de assédio: mulheres e meninas filmadas sem consentimento, com imagens vazadas na internet. A reação foi imediata: redes como JD Wetherspoon, a Comic-Con, escolas e a base de submarinos nucleares de Faslane baniram o acessório.
Em setembro, a Meta apresentou o Ray-Ban Meta Audio. O dispositivo replica as funções de som — chamadas, música direcional e assistente de voz —, mas elimina o sensor de imagem. Segundo a empresa, o produto estava em desenvolvimento há dois anos, não sendo uma reação de emergência. A armação é mais leve, a bateria dura mais e o preço é inferior ao modelo com câmera.
Questionado se a versão apenas de áudio superaria as vendas do original, o chefe de produto Ankit Brahmbhatt fez uma pausa longa antes de responder: “Temos, eu acho, algo para todos”.
Utilidade real ou gadget de nicho?
A jornalista da BBC Zoe Kleinman testou o modelo com câmera em Londres, Glasgow e Portsmouth. O temor inicial de agressões físicas não se concretizou; ninguém reagiu nas ruas. Por outro lado, conhecidos admitiram evitar abordar usuários dos óculos por medo de serem filmados.
Ela encontrou valor prático em funções que não exigem lente:
- Segurança: Ouvir música e GPS sem fones tampando os ouvidos e com o celular guardado, longe de ladrões em bicicletas.
- Acessibilidade: A comunidade de deficientes visuais classifica o dispositivo como “revolucionário” por ler cardápios e descrever ambientes em áudio. A Meta doou 15 mil unidades a uma ONG irlandesa do setor.
- Cotidiano: Cabeleireiros, fisiculturistas e corredores veem potencial para registrar processos e treinos — embora a câmera seja central nesses casos.
O custo invisível? Aceitar que o Meta AI saiba sua localização exata o tempo todo.
Privacidade: a guerra dos dados não acabou
O LED branco que indica gravação virou alvo de uma indústria paralela de hacks para desligá-lo — alguns exigem desmontar a armação. A Meta afirma que menos de 0,1% das unidades vendidas foram adulteradas. A EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, reportou sete milhões de unidades vendidas no último ano, embora não separe modelos inteligentes dos convencionais.
A empresária Liz Hunter lidera petição por regulamentação urgente. “É uma paródia da confiança pública”, diz. Ela defende que a venda seja restrita a deficientes visuais. Paralelamente, o app “ZuckOff”, que detecta óculos inteligentes via Bluetooth, já acumula milhares de downloads. Para Ben Wood, da CCS Insight, o termo “óculos pervertidos” estampado no Financial Times sinaliza uma “forte reação contrária do público”.
Câmera é o “petróleo” da IA generativa
Enquanto a Meta aposta no áudio, concorrentes avançam no vídeo. Samsung negocia com a Warby Parker, Google desenvolve seu modelo e a Snap vende os Specs por US$ 2.195 com exibição de dados nas lentes. Evan Spiegel, da Snap, e Mark Zuckerberg compartilham a visão: óculos substituirão smartphones.
Para Wood, a câmera não vai desaparecer. “É um valioso fluxo de dados para a IA interpretar o ambiente e entregar a melhor informação”, explica. A Meta, inclusive, lança em outubro no Reino Unido a terceira geração com display visual nas lentes. A analista Kate Winick, da Forrester, vê o movimento não como retrocesso, mas “distanciamento”: dar tempo ao usuário para pedir a câmera.
Existe um paradoxo: a existência da versão sem lente cria ambiguidade. “Você não pode esbravejar com todos os usuários, pois não sabe se há câmera ali”, nota Winick.
Alternativas técnicas e a construção de normas sociais
A taiwanesa HTC aposta no comando de voz: se alguém disser “pare de gravar” perto dos óculos Vive Eagle, a câmera desliga. Gravações são criptografadas de ponta a ponta — nem a HTC acessa —, o que impede moderação de conteúdo nocivo. O VP Thomas Dexmier admite: “Reconhecemos dificuldades que se tornam problemas reais, especialmente para mulheres”.
Wood traça um paralelo com os anos 2000: fabricantes de celulares foram pressionados a não incluir câmeras por privacidade. Hoje, são ubíquos. “Precisaremos encontrar uma norma social, um enquadramento para o uso desses produtos”, sentencia.
O que observar daqui para frente
Três vetores definirão o próximo capítulo: a adoção da geração com display (prevista para outubro), o avanço de projetos de lei que restrinjam captação de imagem em espaços privados e a resposta do consumidor ao modelo “apenas áudio”. Se ele virar um “tijolo” de nicho — como celulares sem internet — ou a ponte para a aceitação em massa, dirá se a Meta conseguiu transformar um passivo de imagem em estratégia de produto.
