O Aeroporto Internacional do Galeão confirmou R$ 1 bilhão em aportes privados e a abertura de 30 novos destinos nos próximos três anos. A movimentação sinaliza uma virada de chave para o principal hub internacional do Rio, mas a verdadeira jogada estratégica está em quem passa a comandar as operações.
Aena assume o controle e promete virada em 2027
Desde 6 de outubro, a espanhola Aena — maior operadora aeroportuária do mundo — gere o terminal. A concessionária arrematou a relicitação em março com lance de R$ 2,9 bilhões, quase o triplo do mínimo exigido, garantindo a concessão até 2039.
O diretor-presidente da Aena Brasil, Santiago Yuz, afirmou que os investimentos diretos da empresa em melhorias sensíveis ao passageiro — elevadores, banheiros, climatização — devem ser percebidos a partir do início de 2027. Enquanto isso, o fluxo cresce: foram 17,5 milhões de passageiros em 2024, com previsão de 19 milhões para 2025, ainda bem abaixo da capacidade de 37 milhões.
Os quatro pilares do investimento privado
O montante de R$ 1 bilhão não sai do caixa da Aena, mas de parceiros comerciais que já fecharam contratos. A geração de emprego estimada chega a 3.860 postos. Veja os principais projetos:
- Hotel internacional (bUP): R$ 90 milhões para 232 quartos, expansível para 426.
- Centro de testes BYD: R$ 300 milhões em 184 mil m², com 1.200 vagas.
- Hangar de manutenção Gol: R$ 100 milhões em 56 mil m², gerando 800 empregos.
- Complexo logístico Hire Capital: R$ 484 milhões (R$ 430 mi novo + R$ 54 mi expansão) para 160 mil m² totais.
Malha aérea: foco no exterior e “low cost”
Dos 30 novos destinos, 12 são internacionais. Entram no radar rotas para Nova York, Dallas, Toronto, Montreal, Salta e Lima, além de frequências extras para Paris, Miami, Lisboa e Frankfurt. A estratégia da Aena para preencher a ociosidade passa por atrair companhias de baixo custo (low-cost e ultra-low-cost) e integrar o Galeão à sua rede de 18 aeroportos no Brasil, que somaram 63 milhões de passageiros em 2024.
Um case já em operação é a “venda cruzada” com a Gol: o passageiro compra Congonhas–Galeão–JFK (Nova York) ou Lisboa em um único bilhete, com incentivos tarifários que tornam a conexão no Rio competitiva.
Santos Dumont e a carta na manga da América do Sul
O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé França, descartou licitação para o Santos Dumont no curto prazo. O terminal central banca a Infraero, que administra outros 20 aeroportos. A coordenação entre os dois aeroportos cariocas seguirá a redução gradual de restrições acordada com o TCU.
Paralelamente, o governo avança no Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana (Alas). A abertura para cabotagem — permitindo que empresas estrangeiras operem voos domésticos no Brasil — é a principal aposta para baratear passagens e democratizar o acesso ao modal aéreo.
O que observar daqui para frente
O próximo marco concreto é a entrega das melhorias de infraestrutura prometidas para 2027. Antes disso, o mercado deve monitorar a assinatura de contratos com novas low-costs e a evolução das discussões do grupo de trabalho do Alas. Se a cabotagem sair do papel, o Galeão deixa de ser apenas uma porta de entrada para se tornar um hub de distribuição interno de alto volume — o verdadeiro teste de fogo para a gestão Aena.
