O modelo econômico aplicado na Argentina desde dezembro de 2023 derrubou salários reais em quase 8%, empurrou o desemprego de 5,7% para 7,9% e jogou 6 milhões de pessoas na inadimplência bancária. O diagnóstico vem de três economistas de peso: Joseph Stiglitz, Laura Carvalho e Martín Guzmán.
O que chama atenção não é apenas o tamanho do estrago, mas a conclusão direta: o “experimento” não é replicável no Brasil. E as razões vão muito além de ideologia.
O que os números mostram de concreto
O artigo assinado pelo trio revela um padrão claro de destruição de renda por via inflacionária. A estratégia de Milei combinou corte profundo de gastos públicos — infraestrutura, ciência, universidades — com a erosão do poder de compra de aposentadorias e salários do setor público.
Enquanto isso, impostos sobre os mais ricos caíram e incentivos fiscais generosos foram direcionados a grandes investimentos, majoritariamente no setor de commodities.
- Salários reais: queda de quase 8% desde a posse
- Desemprego: subiu de 5,7% para 7,9%
- Informalidade: avanço puxado por postos de baixa remuneração em serviços
- Inadimplência familiar: 12,8% dos empréstimos em atraso (era 4,5% um ano antes)
- Tomadores afetados: 6 milhões de argentinos — mais de 1/4 do total
Esse nível de aperto financeiro das famílias é o maior registrado desde que o Banco Central argentino começou a compilar a série histórica.
O “sucesso” parcial que esconde o fracasso estrutural
Os autores reconhecem: a inflação caiu. Mas o custo foi a desmontagem do sistema produtivo. A recessão quebrou empresas, reduziu o consumo e fez a pobreza e a fome voltarem a crescer, com impacto brutal sobre idosos e crianças.
O endividamento externo, longe de recuar, aumentou. A Argentina hoje depende perigosamente de apoio do FMI para sustentar o peso — exatamente o oposto do que a retórica oficial prometia.
Por que o Brasil não cabe nesse molde
A comparação feita pelos economistas é direta: o Brasil possui reservas internacionais robustas e não deve ao FMI. A estrutura produtiva brasileira é mais diversificada, e o mercado interno tem dimensão incomparável.
Tentar replicar o arrocho argentino aqui significaria abrir mão de soberania monetária, comprimir salários num país com 200 milhões de consumidores e apostar numa reprimarização da economia — justamente o caminho inverso ao de nações que saíram da armadilha da renda média.
O que observar daqui para frente
O cenário argentino funciona como alerta em tempo real: choques fiscais brutais sem política industrial associada geram recessão, não desenvolvimento. Para o empresariado e investidores brasileiros, o sinal está dado — monitorar a evolução do crédito às famílias, a taxa de investimento produtivo (não apenas financeiro) e a trajetória da dívida externa argentina será essencial para precificar risco na região. O próximo relatório do FMI sobre o país e os dados de atividade do primeiro trimestre de 2025 devem ditar o ritmo das próximas decisões de alocação.
