O economista Roberto Luis Troster aponta 2027 como o ano decisivo para inverter a curva da dívida pública brasileira. A condição, porém, é uma só: o país precisa adotar um pacote fiscal e estrutural capaz de devolver a confiança e desbloquear o investimento privado. Se a janela fechar, o custo será pago por quem produz.
O diagnóstico que assusta o mercado
A expansão descontrolada do endividamento do governo e o custo elevado dos juros estão comprimindo o oxigênio do crédito privado. Troster, coordenador do Cefeb/Fipe, explica que a disputa por recursos no mercado financeiro pressiona as taxas para cima e seca a oferta de dinheiro para empresas e famílias.
O fenômeno já é visível na combinação perigosa de quatro vetores: dívida pública subindo, custo de financiamento nas alturas, crescimento do crédito freado e qualidade das carteiras se deteriorando. Não é projeção; é o retrato atual.
Por que seu negócio sente isso no bolso
Quando o Tesouro precisa captar volumes crescentes, ele “come” a poupança disponível. O resultado direto é o encarecimento do dinheiro para quem gera emprego e renda. Pequenas e médias empresas, reféns do sistema bancário tradicional, arcam com a fatura mais pesada.
Grandes corporações acessam o mercado de capitais com relativa facilidade. Já o varejo, a indústria leve e o setor de serviços dependem quase exclusivamente de linhas bancárias, onde o spread e a seletividade aumentaram brutalmente nos últimos trimestres.
Os números da inadimplência que o banco não te mostra
O alerta mais contundente vem dos dados de inadimplência apresentados pelo economista. O quadro revela uma fragilidade sistêmica que atinge tanto pessoas físicas quanto jurídicas:
- 9 milhões de empresas com restrição de crédito;
- 83 milhões de pessoas físicas negativadas;
- 5,36% da carteira total dos bancos em atraso (considerando parcelas entre 15 e 90 dias e acima de 90 dias).
Esses percentuais sinalizam que o ciclo de crédito já virou. A seletividade dos bancos tende a aumentar, restringindo ainda mais o acesso a capital de giro para os segmentos mais vulneráveis.
O que precisa acontecer até 2027
Troster não cita candidatos, mas desenha o roteiro técnico indispensável para que a “virada de trajetória” saia do papel. Quatro pilares sustentam a mudança:
- Conter a expansão nominal da dívida bruta;
- Elevar a qualidade do gasto público, cortando ineficiências;
- Ampliar a competitividade da economia via reformas microeconômicas;
- Reformar mecanismos que encarecem ou burocratizam o acesso ao crédito.
Sem essa agenda, o cenário base projeta continuidade do estrangulamento do setor privado, juros reais persistentemente altos e crescimento medíocre. A conta, no fim, chega na forma de menos investimento, menos empregos e renda estagnada.
O que observar daqui para frente
O termômetro para 2027 começa a ser medido agora. Acompanhe a trajetória do resultado primário do governo central nos próximos relatórios fiscais bimestrais. Observe também a evolução do spread bancário livre e a taxa de inadimplência das carteiras de PJ — são eles que antecipam se o crédito voltará a fluir ou se o ciclo vicioso se aprofundará. A janela está aberta; a definição política é que determinará se ela será atravessada.
