Economia

Mercosul-China: o acordo que pode redefinir o jogo comercial da América do Sul…

Líderes do Mercosul e China apertam as mãos simbolizando acordo comercial estratégico
Negociação Mercosul-China pode redefinir comércio sul-americano com 28% das exportações já destinadas a Pequim

Com o acordo Mercosul-União Europeia finalmente assinado, a atenção do bloco se volta inevitavelmente para Pequim. A China já responde por 28% do comércio exterior do grupo — quase o dobro da fatia europeia — e uma negociação formal pode alterar margens, cadeias logísticas e o próprio mapa de investimentos na região.

O sinal político partiu de uma conversa entre Lula e Xi Jinping no fim de julho. Ambos concordaram na necessidade de “flexibilidades” para acelerar o diálogo. Para quem opera comércio exterior, o recado é claro: a janela de reposicionamento competitivo abriu.

O choque tarifário que mudou a urgência

O timing não é coincidência. Dias antes do telefonema, os Estados Unidos ativaram uma alíquota adicional de 25% sobre cerca de 3.000 produtos brasileiros, amparados na Seção 301 do USTR. Para gestores de cadeia de suprimentos, esse tipo de choque costuma ser o gatilho definitivo para buscar rotas alternativas.

No fim de 2025, um documento oficial chinês já antecipava a estratégia: ampliar a cooperação com a América Latina para além do comércio, abrangendo investimentos, ciência e tecnologia. O recado mirava diretamente quem monitora risco geopolítico em carteiras na região.

Por que os números não mentem

A relação já é a mais relevante do bloco — e a distância é grande:

  • 28% do comércio total do Mercosul passa pela China (UE: 17%)
  • Exportações conjuntas do bloco: US$ 111,5 bilhões
  • Importações: US$ 96,4 bilhões
  • Brasil concentra 90% das exportações e 74% das importações do grupo

Ou seja: um acordo não criaria uma nova relação. Ele institucionalizaria a que já move a agulha, com potencial para redesenhar barreiras não alfandegárias — restrições fitossanitárias, por exemplo — que hoje travam margens de quem já exporta.

Velocidade: por que este pode ser diferente do modelo europeu

O acordo com a União Europeia levou mais de 25 anos. O interlocutor era um bloco de 27 países com interesses divergentes. Com a China, a negociação é bilateral, única.

“A China não publiciza, tem outra forma de negociar. Um acordo formal reduziria tarifas e barreiras não tarifárias, tornando nossos produtos ainda mais competitivos”, explica Regiane Nitsch Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp.

Ela aponta um vetor concreto para quem avalia expansão produtiva ou logística: o capital chinês já migrou do agronegócio para energia, mineração, telecomunicações e infraestrutura. “Um marco regulatório mais robusto pode destravar financiamentos em portos, ferrovias e rodovias, reduzindo gargalos logísticos na América do Sul.”

Oscar Fernández-Guillén, da Universidad Nacional del Sur (Argentina), reforça: “A integração econômica do bloco precisa de maior conectividade física. Para isso, pode contar com um parceiro como a China.”

Assimetrias internas: o risco de execução que ninguém ignora

O Mercosul negocia por consenso. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai têm poder de veto. O problema: cada um está em um estágio diferente com Pequim.

  • Brasil e Argentina: relações bilaterais avançadas
  • Uruguai: nível básico de associação
  • Paraguai: nenhum acordo formal — reconhece Taiwan, o que Pequim exige romper como condição

Essa assimetria pode gerar cláusulas diferenciadas por país ou prazos escalonados. A Venezuela está suspensa desde 2017; a Bolívia segue em processo de adesão.

Acordo amplo ou pacote setorial? A leitura dos especialistas

Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China, vê ganhos claros: “O acordo traz mais ganhos do que perdas, e a decisão é política.” Mas pondera que a tensão com os EUA favorece o movimento sem ser o fator decisivo, e admite resistência da indústria nacional.

Gustavo Rojas, do Cadep (Paraguai), recomenda moderar expectativas de curto prazo: “Provavelmente não sinaliza um acordo de livre comércio, mas algo mais modesto — um acordo parcial em linhas tarifárias limitadas ou facilitação comercial, como normas sanitárias.”

Ignacio Bartesaghi, da Universidade Católica do Uruguai, adiciona uma variável: o Brasil pode não ter pressa. “O Mercosul tem superávit bilionário, atrai investimentos e tem relações estratégicas com a China no Brics. Além disso, o Brasil já conta com investimentos chineses futuros em corredores bioceânicos.”

O que observar daqui para frente

Para quem decide alocação de capital, expansão comercial ou estruturação logística na região, três variáveis merecem monitoramento contínuo:

  • Velocidade regulatória: interlocutor único acelera, mas não há cronograma formal definido
  • Infraestrutura como porta de entrada: portos, ferrovias, corredores bioceânicos são as frentes mais citadas para captação de investimento chinês — com ou sem acordo assinado
  • Assimetria intrabloco: o veto de qualquer fundador, somado às posições distintas de Paraguai e Uruguai, permanece o principal risco de execução

O cenário eleitoral brasileiro em 2026 adiciona uma camada: avanços concretos tendem a ficar para depois das urnas. Mas a linha do Itamaraty é consolidada — e a presença chinesa na região, seja via acordo formal ou investimentos diretos, não depende de quem ocupa o Planalto.