Economia

O abismo fiscal de R$ 11 tri que o próximo presidente herdará… e o que ninguém diz sobre a saída

Gráfico mostra dívida pública brasileira atingindo R$ 11 trilhões, 82,9% do PIB, maior nível desde pandemia
Dívida bruta do setor público fecha agosto em R$ 11,05 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB brasileiro.

A dívida bruta do setor público fechou agosto em R$ 11,05 trilhões, o equivalente a 82,9% de tudo o que o Brasil produz em um ano. Em termos práticos, o país deve quase dez meses de PIB inteiro — o maior patamar desde o auge da pandemia.

Mais de 20 economistas de diferentes escolas ouvidos pelo g1 apontam na mesma direção: o reequilíbrio das contas públicas é, de longe, o desafio número um para quem assumir o Planalto em 2027. Mas o consenso para por aí.

Por que o fiscal trava tudo o resto

Quando o governo gasta sistematicamente mais do que arrecada, precisa se endividar. Quanto maior a dívida e a dúvida sobre sua sustentabilidade, maior o prêmio de risco que investidores exigem. O resultado imediato são juros reais mais altos, crédito mais caro para famílias e empresas e inflação mais resistente.

O Brasil lidera hoje o ranking mundial de taxa de juros real. Segundo Roberto Dumas, do Insper, o país entrou num “círculo vicioso”: juros altos incham a dívida (numerador) e freiam o PIB (denominador), elevando a relação dívida/PIB e forçando juros ainda maiores.

Para Felipe Salto, da Warren Investimentos, a equação só fecha com um plano de ajuste crível — superávit de 0,3% do PIB no primeiro ano, chegando a 2% ao fim do mandato —, atacando o crescimento das despesas obrigatórias e o volume de benefícios tributários.

O nó das despesas obrigatórias

Adriana Dupita, da Bloomberg Economics, resume a armadilha: mais de 90% dos gastos totais são obrigatórios, e metade desse montante está atrelada ao salário mínimo. “Não há tesouraço ou motosserra que resolva”, diz. Qualquer corte relevante exige reformas constitucionais, apoio no Congresso, no Judiciário e na sociedade — num país onde parcelas vulneráveis dependem dessas transferências.

  • Previdência e pessoal consomem a fatia principal do Orçamento.
  • Regras de correção (salário mínimo, piso da saúde/educação) criam indexação automática.
  • Subsídios e renúncias fiscais somam centenas de bilhões ao ano sem avaliação rigorosa de retorno.

Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, é taxativo: o sinal de ajuste deve vir no primeiro dia de governo. “Se não acontecer, teremos colapso de expectativas: dólar subindo, juros futuros disparando, crédito contido pelos bancos.”

Além do ajuste: produtividade e endividamento privado

O fiscal é condição necessária, não suficiente. Gustavo Sung, da Suno Research, lembra que a produtividade do trabalho cresceu míseros 0,6% ao ano nos últimos 45 anos (dados da FGV). Com o bônus demográfico se esgotando — a população envelhece e a força de trabalho encolhe —, crescer depende de fazer mais com cada hora trabalhada.

Paulo Feldmann (FEA-USP) aponta gargalos microeconômicos: custo logístico rodoviário, energia cara, burocracia asfixiante e educação defasada. “O debate foca no fiscal, mas a produtividade é o motor de longo prazo.”

Outro flanco crítico: o endividamento de famílias e empresas. André Roncaglia (FMI/UnB) fala em “desalavancagem ordenada” — reduzir o peso das dívidas sem derrubar a atividade. Joelson Sampaio (FGV) nota a explosão de recuperações judiciais, sinal de estresse no setor produtivo.

Reformas, infraestrutura e o tabuleiro externo

Economistas como André Galhardo (Análise Econômica) e Bruno Imaizumi (4intelligence) defendem que o ajuste fiscal deve vir acompanhado da segunda fase da reforma tributária (foco em progressividade e simplificação), desburocratização e marco regulatório para atrair capital privado a transporte, energia e saneamento.

No front externo, Alex Agostini (Austin Rating) e Marcos Praça (Zero Markets) alertam: a diplomacia comercial com EUA e China — maiores parceiros — exigirá pragmatismo. Disputas por minerais críticos, tarifas e alinhamentos geopolíticos não esperam calendário eleitoral.

O que observar daqui para a frente

Três variáveis dirão se o próximo governo acerta o passo nos primeiros cem dias: (1) a clareza e a velocidade do anúncio de medidas fiscais estruturais; (2) a reação da curva de juros futuros e do câmbio a esse anúncio; (3) a disposição política para tocar reformas que mexem em direitos consolidados e interesses organizados.

Se o ajuste for crível, abre-se espaço para queda da Selic, alongamento da dívida e retomada do investimento privado. Se vier fatiado ou tardio, o prêmio de risco permanece elevado e o crescimento potencial segue travado abaixo de 2% ao ano. O relógio começa a correr em 1º de janeiro de 2027 — e o mercado não costuma dar segunda chance.