Pela primeira vez em décadas, a influência chinesa é vista com mais bons olhos do que a americana na América Latina: 65% contra 57%. A virada acontece justamente no momento em que candidatos de direita, muitos alinhados a Donald Trump, vencem eleições em série na região.
O paradoxo expõe uma fragilidade estratégica para quem opera nos dois mercados. Entender o que está por trás dos números é condição básica para antecipar riscos e oportunidades nos próximos ciclos.
O que os números revelam sobre a nova geopolítica regional
A pesquisa Latinobarómetro, aplicada em 17 países, mostra que a imagem favorável dos Estados Unidos caiu dez pontos percentuais em apenas um ano — de 73% para 63%. A queda coincide com os primeiros 20 meses do segundo mandato de Trump, período em que sete presidentes de direita assumiram o poder no subcontinente.
Apesar da sintonia ideológica, a postura agressiva da Casa Branca em relação à região cobra seu preço. Dois terços dos entrevistados desaprovam a condução das relações internacionais por Washington. A exceção é a Venezuela: 61% dos venezuelanos aprovam a abordagem americana, e 69% apoiam a captura de Nicolás Maduro organizada em janeiro. Mesmo assim, apenas 35% acreditam que a intervenção trará benefícios concretos.
Por que a direita venceu mas a confiança nos EUA caiu
A resposta passa por Nayib Bukele. O presidente de El Salvador é a figura mais admirada da região, segundo o levantamento. Seu modelo — redução drástica de homicídios via prisões em massa sem julgamento e controle sobre instituições democráticas — virou referência para eleitores que priorizam segurança acima de procedimentos institucionais.
Candidatos como Abelardo de la Espriella, eleito na Colômbia, surfam nessa onda. Prometem replicar a “mão de ferro” contra o crime. A segurança pública já é a principal preocupação em sete países, liderando no Equador. O conservadorismo social completa a equação: dois terços dos latino-americanos se opõem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à legalização do aborto.
- 65% veem influência chinesa positivamente
- 57% veem influência americana positivamente
- 63% têm opinião favorável aos EUA (era 73% em 2024)
- 22% se sentem representados pelos parlamentos
- 73% dizem que o Estado fez “pouco ou nada” por eles nos últimos três anos
O efeito Bukele e a demanda por mão de ferro
A popularidade do modelo salvadorenho não significa rejeição à democracia. Metade dos entrevistados ainda apoia o regime democrático, patamar estabilizado após a queda dos anos 2010. O dado surpreendente: 55% afirmam que a democracia não funciona sem partidos políticos, alta de 11 pontos sobre 2023.
Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, resume: “Um terço diz que instituições democráticas não são importantes, mas sempre foi assim. Apesar de pandemia e baixo crescimento, o apoio à democracia continua.”
Democracia: apoio resiliente, mas instituições rejeitadas
A insatisfação é com o funcionamento prático. Apenas 15% consideram boa a situação econômica de seu país. Satisfação com hospitais públicos: 28%. Com a polícia: 30%. O Parlamento é a instituição mais repudiada.
Essa frustração derrubou governos incumbentes — majoritariamente de esquerda nos pleitos recentes. O eleitor latino-americano segue acreditando no voto como instrumento de mudança. Prova disso: Colômbia, Honduras e Peru registraram aumento no apoio à democracia após vitórias de direita. A Bolívia, onde Rodrigo Paz enfrenta crise econômica, foi a exceção.
Economia e segurança: as duas faces da insatisfação
O peso da informalidade explica muito. Só 28% contribuem para a previdência social. Quando questionados sobre o que o Estado fez por eles, 73% respondem “pouco ou nada” — ante 63% em 2011. As redes sociais substituíram TV, rádio e jornais como fonte principal de informação política, mas mais de 70% duvidam que elas reflitam o pensamento majoritário.
Há uma divisão regional nítida. No Sul — Argentina, Chile, Uruguai —, a maioria apoia direitos reprodutivos e casamento igualitário. No resto do subcontinente, o conservadorismo predomina. Para investidores, isso significa ambientes regulatórios e de consumo profundamente assimétricos.
O que observar daqui para frente
O otimismo pessoal resiste: 52% acreditam que sua situação individual melhorará no próximo ano, maior taxa desde 1995. Apenas 36% apostam na melhora da economia nacional. A intenção de emigrar caiu de 30% para 25%, possivelmente reflexo do endurecimento migratório nos EUA.
Para quem toma decisões de alocação ou expansão, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a evolução da percepção sobre China versus EUA em setores estratégicos (infraestrutura, tecnologia, commodities), a capacidade dos novos governos de direita entregar segurança sem rupturas institucionais que afugentem capital, e a velocidade com que a insatisfação com serviços públicos se traduz em pressão por reformas estruturais — ou em instabilidade política. O lar e a família seguem como âncora social, mas o contrato entre Estado e cidadão está em renegociação aberta.
