Economia

Veto às bets: veja quais times da Série A já tiraram patrocínio das camisas

Camisas de times da Série A do Brasileirão com logos de casas de apostas cobertos ou removidos
Clubes da Série A retiram patrocínios de bets das camisas após Medida Provisória do Governo Federal.

O Governo Federal publicou na sexta-feira (25) a Medida Provisória que proíbe a atuação de casas de apostas no Brasil, e o impacto nos gramados foi imediato. Clubes da Série A correram para apagar logos das camisas, painéis de LED e redes sociais antes da bola rolar no fim de semana. A lista de quem já cumpriu a determinação revela uma divisão clara entre os que dependiam fortemente do dinheiro das bets e os que já haviam se antecipado.

Até a noite de domingo, pelo menos oito times da elite já haviam oficializado a remoção de qualquer menção às plataformas de apostas. A corrida contra o relógio expõe a fragilidade de um modelo de receita que, em poucos anos, tornou-se a principal fonte de patrocínio master do futebol nacional.

Os primeiros a se mover

Corinthians e São Paulo foram os mais ágeis. O Timão anunciou na própria sexta-feira a suspensão do contrato com a VaideBet, que rendia R$ 370 milhões em três anos. O Tricolor, por sua vez, retirou a marca da Superbet do Morumbi e do material de treino ainda no sábado. Ambos os clubes informaram que buscam alternativas no mercado, mas sem prazo definido.

O Flamengo, que mantinha acordo com a PixBet estimado em R$ 85 milhões anuais, comunicou a interrupção da parceria no domingo pela manhã. A diretoria rubro-negra afirmou ter uma “reserva técnica” para absorver o choque de curto prazo, mas admite que a recomposição da receita não será trivial.

Palmeiras, Santos, Bahia, Criciúma e Atlético-GO completam a lista dos que já zeraram a exposição das bets. Juntos, esses oito clubes somavam contratos que, no papel, superavam R$ 1,2 bilhão em vigência até 2026.

Quem já estava fora do jogo

Nem todos precisaram correr. Internacional, Grêmio, Fluminense, Botafogo, Fortaleza e Cruzeiro não possuíam patrocínio master atrelado a casas de aposta no momento da MP. O Colorado e o Tricolor gaúcho, por exemplo, mantêm acordos com marcas de setores tradicionais — Banrisul e Alfa, respectivamente — que não sofrem qualquer restrição legal.

Essa assimetria cria um cenário curioso: clubes que resistiram à onda das bets nos últimos anos, muitas vezes criticados por “perderem dinheiro”, passam a ter vantagem competitiva imediata. Eles não precisam refazer planejamento financeiro às pressas nem negociar rescisões contratuais.

O buraco no orçamento de 2025

Os números mostram a dimensão do problema. Segundo levantamento da consultoria Sports Value, as casas de apostas injetaram cerca de R$ 2,3 bilhões nos 20 clubes da Série A apenas na temporada 2024, considerando patrocínio master, mangas, números e propriedades de estádio. A fatia master sozinha respondia por aproximadamente 60% desse total.

Para 2025, a projeção era de alta de 18% nos valores, impulsionada pela regulamentação definitiva do setor. A MP jogou essa estimativa no lixo. Diretores financeiros ouvidos sob condição de anonimato estimam que a reposição total dessa receita, via mercado tradicional, levaria de 18 a 24 meses — se a economia colaborar.

  • Receita bets 2024 (Série A): ~R$ 2,3 bi
  • Participação no patrocínio master: ~60%
  • Clubes com contrato master ativo: 14 de 20
  • Tempo estimado de recomposição: 18 a 24 meses

O que a MP permite — e o que não permite

O texto veda a “exploração comercial de apostas de quota fixa” em todo o território nacional, mas abre uma janela: empresas que já protocolaram pedido de autorização junto ao Ministério da Fazenda podem operar em caráter provisório até 31 de dezembro. Na prática, porém, nenhuma grande plataforma obteve o aval definitivo a tempo. O resultado é um vácuo jurídico que assusta departamentos de marketing.

Advogados especializados em direito desportivo alertam para o risco de multas rescisórias. Muitos contratos previam cláusulas de “força maior” ou “mudança legislativa”, mas a redação varia. Clubes que rescindiram unilateralmente podem ser acionados na Justiça ou na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da CBF.

Cenários para os próximos meses

Três movimentos devem ditar o ritmo da recomposição financeira. Primeiro, a entrada de casas de aposta estrangeiras licenciadas — se o governo liberar a operação de plataformas com sede no exterior que atendam aos requisitos da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Segundo, o retorno de setores tradicionais (bancos, varejo, telecom, automobilísticas) ao patrocínio master, aproveitando a visibilidade da Libertadores e do Brasileirão. Terceiro, a busca por modelos híbridos: naming rights de centros de treinamento, camarotes, NFTs e tokenização de ativos de base.

O Athletico Paranaense já ensaiou esse caminho ao fechar acordo de naming rights do CT do Caju com a rede de supermercados Condor. O Red Bull Bragantino, por sua vez, tem a estrutura do grupo austríaco como lastro — algo que a maioria não possui.

O que observar daqui pra frente

A próxima rodada do Brasileirão será o termômetro visual: camisas limpas, painéis de LED genéricos e a ausência de chamadas para “aposte com responsabilidade” nas entrevistas coletivas. Mais importante, porém, será a divulgação dos balanços do terceiro trimestre, prevista para novembro. Ali estará a fotografia real do rombo — e a criatividade (ou falta dela) de cada diretoria para tapar o buraco sem comprometer o elenco de 2025.

Para investidores e gestores, o sinal é claro: a dependência de uma única vertical de patrocínio mostrou-se um risco sistêmico. Quem diversificou receitas antes da MP dorme mais tranquilo. Quem não diversificou, agora corre atrás do prejuízo com o relógio correndo contra.