Tecnologia

Computação quântica no Brasil: grupo da FURG estreia no topo mundial com aluno de graduação como autor principal

Estudante Kauã Barbosa da FURG apresentando pesquisa em computação quântica na IEEE Quantum Week 2026
Kauã Barbosa, aluno de graduação da FURG, lidera artigo brasileiro na IEEE Quantum Week em Toronto.

O Centro de Ciências Computacionais da FURG colocou o Brasil no mapa da computação quântica global em setembro de 2026. O recém-lançado Quantum@C3 estreou com três artigos em eventos de elite — um deles na IEEE Quantum Week, em Toronto, conferência que reuniu 2,3 mil especialistas e 372 trabalhos técnicos.

O detalhe que chama a atenção do mercado: o primeiro autor do estudo apresentado no Canadá é Kauã Barbosa, estudante de Engenharia de Automação e bolsista do PRH-22. Um aluno de graduação assinando pesquisa de ponta em uma das principais vitrines mundiais da área.

Da indústria de Rio Grande para o palco de Toronto

O trabalho “Unsupervised Quantum Kernels for One-Class Fault Detection in Industrial Time Series” atacou um problema real da indústria: a escassez de registros de falhas. A solução adotada foi uma abordagem de classe única — o modelo aprende apenas o padrão de funcionamento normal e usa kernels quânticos para medir desvios.

Em termos práticos: a técnica permite detectar anomalias em sensores industriais mesmo sem histórico de erros. Algo valioso para petróleo, gás e manufatura, onde paradas não planejadas custam milhões.

“Começamos com uma pergunta sobre dados industriais, aqui em Rio Grande. Em Toronto, discutimos essa pergunta com grupos de outros países”, resumiu Kauã após a apresentação em 13 de setembro.

Duas frentes, uma semana de diferença

O grupo não parou no Canadá. De 21 a 25 de setembro, outros dois trabalhos foram apresentados no 1º Congresso Brasileiro de Ciências e Tecnologias Quânticas (CBCTQ 2026), em Niterói, evento bancado pelo MCTI que cobriu as viagens dos pesquisadores.

  • 24/09: Kauã apresentou análise de sensibilidade de kernels quânticos para séries temporais industriais (visão data-centric)
  • 25/09: Everson Flores, doutorando do PPGComp, abriu a sessão de Computação Quântica com artigo publicado no IEEE Access sobre aprendizado de máquina quântico centrado em dados

Os dois eventos — IEEE Quantum Week e CBCTQ — são as principais portas de entrada para colaborações internacionais e funding público-privado na área.

O que é Data-Centric Quantum Machine Learning

A assinatura metodológica do Quantum@C3 é a DC-QML: deslocar o foco do refinamento de modelos para a qualidade, organização e codificação dos dados. A tese é simples — parte dos ganhos recentes em quantum ML vem de melhores práticas de dados, não apenas de algoritmos mais sofisticados.

A abordagem estrutura em fluxo único: ingestão → pré-processamento → codificação quântica → treinamento. Isso reduz o ruído de entrada, crítico em hardware atual com qubits limitados e decoerência alta.

Origem: currículo global, execução local

O grupo nasceu da participação da FURG na força-tarefa IEEE/ACM/AAAI que redigiu o CS2023 — as novas diretrizes globais de currículo em Ciência da Computação. O documento criou a unidade “Quantum Architectures” entre 17 áreas essenciais.

Professores e alunos voluntários do C3 organizaram-se em 12 pesquisadores, três linhas de atuação e produção acadêmica imediata: seis publicações em 2026, repositórios no GitHub (qsvm-benchmark e oc-qsvm-benchmark) e três projetos em andamento.

Três linhas, um alvo: hardware real, problemas reais

O Quantum@C3 não ignora as limitações atuais — ruído, decoerência, poucos qubits. Pelo contrário: desenha métodos compatíveis com o estágio NISQ (Noisy Intermediate-Scale Quantum).

  • DC-QML: qualidade e representação de dados para quantum ML
  • Sistemas Computacionais Quânticos: detecção de anomalias, monitoramento ciberfísico, ambientes inteligentes
  • Sistemas Quânticos Distribuídos: comunicação ponto a ponto, efeitos de decoerência na transmissão

O coordenador Marcelo Pias compara o momento ao início da era dos microprocessadores (anos 1970-80): “Temos portas e circuitos quânticos, mas não temos sistema operacional nem compiladores maduros. Mesmo assim, já dá para resolver problemas industriais complexos.”

Projetos em execução e o que observar

Três frentes avançam em paralelo: (1) decoerência e propagação de erros em comunicação quântica baseada em fótons; (2) DC-QML aplicada a ambientes industriais com foco em representação de dados para detecção de anomalias; (3) livro de acesso aberto para ensinar DC-QML em aplicações industriais.

O código aberto no GitHub permite que outras equipes testem, validem e estendam os benchmarks de QSVM — acelerando a curva de aprendizado do ecossistema nacional.

O que monitorar nos próximos trimestres

A combinação de publicação em venue top-tier (IEEE Quantum Week), protagonismo de aluno de graduação, abordagem data-centric diferenciada e foco em problemas industriais coloca o Quantum@C3 como vetor de observação obrigatória para quem acompanha inovação deep tech no Brasil.

Três sinais práticos: evolução dos benchmarks open-source, parcerias com LNCC/MCTI e demais ICTs, e a entrega do livro didático — que pode padronizar a formação de talentos em quantum ML aplicado à indústria. Quem chega cedo nesse ecossistema acessa talento, IP e casos de uso antes da curva de hype.