Mensagens trocadas entre o advogado Willer Tomaz e o gerente VIP da Blaze revelam uma operação deliberada para contornar as regras federais de apostas online. O esquema envolvia criptomoedas, saques fracionados e até a dispensa de reconhecimento facial — tudo documentado em ata notarial anexada a um processo judicial.
O volume assusta: R$ 10 bilhões movimentados apenas em 2025 e um acumulado de R$ 13 bilhões até junho de 2026. Mas a pergunta que fica é: como um escritório de advocacia especializado em regulação de pagamentos conseguiu operar por tanto tempo fora das regras?
A conversa que expõe o combinado
Em 31 de outubro de 2025, Willer relatou ao concierge da Blaze que bancos e reguladores questionavam o volume de transações. A solução proposta pelo gerente VIP foi direta: usar criptomoedas para escapar dos limites legais.
“Dessa forma, não ficamos presos a determinados limites e podemos movimentar valores maiores por depósito e saque”, escreveu o funcionário da plataforma. Willer, que à época advogava para a empresa responsável pela intermediação de pagamentos no Rio de Janeiro, aceitou na hora: “Nós podemos tentar. Você me guia?”
Dois minutos, R$ 5 milhões em jogo
A adesão ao método irregular liberou apostas ainda mais agressivas. No mesmo dia, entre 21h58 e 22h, o advogado apostou R$ 500 mil por rodada em uma mesa de cassino virtual exclusiva. Resultado: ganhou R$ 2,5 milhões e perdeu o mesmo valor em 120 segundos.
O saque dos lucros, porém, esbarrou na realidade do sistema financeiro. Os R$ 6 milhões solicitados foram pagos em 400 depósitos de R$ 15 mil — o teto do Pix para instituições de pagamento não autorizadas pelo Banco Central.
- Volume 2025: ~R$ 10 bilhões
- Acumulado jun/2026: R$ 13 bilhões
- Maior sessão: R$ 5 milhões em 2 minutos
- Saque fracionado: 400 operações de R$ 15 mil
Bônus milionários e a dispensa do reconhecimento facial
Dez dias após a maratona de apostas, a Blaze creditou R$ 3 milhões em bônus de fidelidade. Willer perdeu tudo em dias e pediu mais. Recebeu R$ 100 mil — além de um bônus anterior de R$ 1,7 milhão que já havia usado.
Mas a irregularidade mais grave veio antes: a plataforma liberou saques sem reconhecimento facial, exigência obrigatória pela nova regulação. Willer reclamou que o processo “demorava até um minuto” e exigiu limite de R$ 500 mil por saque. A resposta do concierge: “Você não vai mais ser amolado com o reconhecimento facial, então você pode fazer quantos pedidos quiser”.
O que a Justiça decidiu até agora
O TJSP negou o pedido de bloqueio de R$ 144 milhões da Blaze para cobrir as perdas do advogado. Na defesa, a empresa rebateu ponto a ponto as acusações de Willer — mas silenciou sobre a sugestão de criptomoedas e o fracionamento de depósitos.
Nem a Blaze nem Willer Tomaz se manifestaram publicamente sobre os diálogos revelados.
O que observar daqui para frente
O caso expõe falhas na fiscalização de grandes apostadores e na aplicação de penalidades a plataformas que facilitam a evasão de controles. Para investidores e operadores do setor, o sinal é claro: a conformidade não está apenas no cadastro — está no monitoramento efetivo de quem move volumes atípicos. A próxima etapa deve trazer cobranças mais duras sobre due diligence de clientes VIP e rastreabilidade de criptoativos em casas de aposta licenciadas.
