A Caixa Econômica Federal quer ir além do crédito e assumir a estruturação de projetos de infraestrutura. O movimento pode redesenhar como municípios acessam recursos para saneamento, transporte e habitação — e abre uma frente de R$ 66,3 bilhões em certames previstos.
O vice-presidente de Governo do banco, Marcos de Carvalho Araújo, confirmou a intenção durante evento em São Paulo. A instituição já opera o Caixa Políticas Públicas, braço de assistência técnica a entes públicos. Agora, estuda elaborar anteprojetos e projetos executivos, preenchendo uma lacuna que hoje trava licitações.
O entrave jurídico que o banco precisa resolver
A expansão esbarra no chinese wall — a segregação interna que impede conflitos entre quem estrutura o projeto e quem o financia. A Caixa afirma que a atuação seria complementar ao BNDES, não concorrente. Hoje, o banco já atua em crédito direto e PPPs; a novidade seria entrar na fase anterior, a de modelagem técnica.
Se o obstáculo regulatório for superado, prefeituras e estados ganhariam um parceiro capaz de tirar do papel obras que travam por falta de projetos viáveis.
Saneamento: o termômetro do apetite privado
O setor expõe o tamanho do desafio. Em 2024, o leilão de Rondônia foi cancelado por ausência de propostas. Ainda assim, a Abcon mapeia 31 certames nos próximos meses, abrangendo 631 municípios em estados como São Paulo, Goiás e Ceará.
- Investimentos projetados: R$ 66,3 bilhões
- Municípios contemplados: 631
- Leilões já realizados desde 2020: 70
O volume futuro é expressivo, mas inferior ao já contratado. A maior parte dos blocos regionais atrativos foi arrematada na onda pós-Marco Legal. O que resta são projetos menores, mais complexos ou dependentes de regularização fundiária e tarifa.
Por que a regulação municipal trava os investimentos
Carlos Piani, presidente da Sabesp, foi direto: “Se a regulação fosse federal, acho que a gente mais do que dobrava os investimentos”. A fragmentação entre 5.570 municípios cria incerteza contratual, riscos tarifários e prazos imprevisíveis — veneno para modelos de concessão de longo prazo.
Daniela Sandoval, VP da BRK, vê o copo meio cheio: a participação privada saltou de 6% para quase 50% dos municípios. “Metade dos projetos ainda está por vir”, diz. O apetite existe; falta segurança jurídica e projetos prontos para leilão.
O que observar daqui para frente
A capacidade da Caixa de entregar projetos executivos de qualidade — e dentro das regras de segregação — ditará o ritmo. Se o banco conseguir padronizar modelagens para municípios de médio porte, pode destravar a fila de 31 leilões e criar uma esteira de negócios para construtoras, operadores e fundos de infraestrutura.
Fique atento aos editais de consulta pública do Caixa Políticas Públicas e às movimentações do BNDES para evitar sobreposição. O próximo trimestre dirá se a estruturação sai do papel ou fica no estudo.
