Tecnologia

Europa abandona Big Techs e adota software livre: o que o Brasil esqueceu

Mapa da Europa destacando França com ícones de software livre e soberania digital
França lidera movimento europeu de soberania digital ao exigir software livre na administração pública.

A França determinou que ministérios eliminem dependência de softwares estrangeiros até novembro. O movimento expõe uma fragilidade brasileira: o país já liderou essa revolução e hoje assiste da arquibancada.

O continente que virou sinônimo de regulação resolveu construir. O resultado é um manual prático de soberania digital que o Brasil ajudou a escrever, mas parou de ler.

O choque de realidade francês

O Departamento Interministerial do Digital (Dinum) não fez recomendações. Impôs prazos. A administração pública francesa deve apresentar planos concretos de migração para tecnologias abertas hospedadas na Europa.

A lógica é direta: não existe soberania quando o Estado depende de corporações americanas para tarefas básicas — videochamadas, editores de texto, planilhas.

O arsenal que substitui o pacote Office

O portal lasuite.numerique.gouv.fr cataloga as alternativas validadas. Não são protótipos: já rodam em produção.

  • Visio no lugar de Teams e Zoom
  • Tchap substitui WhatsApp e Slack — 600 mil servidores já migraram
  • Docs (parceria franco-alemã) enfrenta o Google Docs
  • Grist assume o papel do Excel

Como o código é aberto, qualquer órgão instala sua própria cópia. Zero custo de licença por usuário.

A conta que fez o governo francês migrar

Só com o Visio, a projeção é economizar € 1 milhão por ano (cerca de R$ 5,9 milhões) a cada 100 mil usuários. Multiplique pela máquina pública e o número salta aos olhos.

O consultor Samuel Berthelot documentou a transição da equipe dele. O relato técnico confirma o que planilhas previam: sincronização 10 a 20 vezes mais rápida via OpenCloud, fim de custos recorrentes por assento, integração nativa entre ferramentas antes isoladas.

Mas ele avisa: exige mudar hábitos enraizados. A migração é progressiva, não mágica.

O espelho retrovisor: Brasil anos 2000

Quem acompanhou tecnologia no Brasil há duas décadas sente déjà vu. O país construiu o Portal do Software Público, referência global. Porto Alegre sediava a maior conferência de software livre do mundo — a FISL —, imã para talentos do planeta.

O portal segue no ar. Parado desde 2018. Sem roadmap, sem orçamento, sem ambição.

A ironia dói: a Europa de 2026 executa a estratégia que o Brasil desenhou em 2005. Enquanto isso, o setor público brasileiro renova contratos com os mesmos fornecedores de sempre.

Três marcos para quem decide tecnologia

Já era: tratar software aberto como utopia ideológica.

Já é: comprovar viabilidade técnica e econômica em escala governamental.

Já vem: a chance de redesenhar a infraestrutura digital do país antes que a dependência trave qualquer margem de manobra.

O que observar nos próximos meses

O prazo de novembro na França forçará relatórios de avanço — dados reais de adoção, resistência, custos ocultos. Acompanhar esses números vale mais que qualquer manifesto.

No Brasil, a pergunta prática: qual órgão público terá coragem de pilotar uma suíte aberta em 2025? Quem mover primeiro define o padrão. Quem espera, paga a conta em dólares.