O Boletim Focus desta segunda-feira (28) trouxe um duplo sinal de alerta: a inflação projetada para 2024 subiu pela segunda semana consecutiva, atingindo 4,99%, enquanto a expectativa de crescimento do PIB recuou pela terceira vez seguida, para 1,86%. A combinação pressiona o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo.
Mas o número que realmente tira o sono dos analistas não está no manchete. Está na projeção para 2026.
O que mudou no Focus esta semana
A mediana das estimativas para o IPCA deste ano avançou de 4,92% para 4,99%, flertando com os 5%. Para o PIB, a queda de 1,88% para 1,86% marca o nível mais baixo desde maio. Em contrapartida, a projeção para a Selic no fim de 2026 travou em 13,50% ao ano — patamar mantido há uma semana após recuo de 13,75%.
- IPCA 2024: 4,99% (era 4,92%)
- PIB 2024: 1,86% (era 1,88%)
- Selic fim de 2026: 13,50% (estável)
- Dólar fim de 2024: R$ 5,20 (estável)
Juros altos por mais tempo: a conta do IPCA acima da meta
O centro da meta de inflação para 2026 é 3%, com teto de tolerância em 4,5%. A projeção do mercado para aquele ano permanece acima desse limite, o que explica a Selic estacionada em dois dígitos até o final do período. O ciclo de queda previsto pelos economistas é lento: 13,75% em setembro, 13,63% em outubro e 13,50% em novembro.
Para 2027, a expectativa é de Selic a 12%, caindo para 10,5% em 2028 e 10% em 2029. Ou seja, o juro real seguirá elevado por um horizonte longo, encarecendo crédito imobiliário, capital de giro e financiamento de veículos.
Dólar e preços administrados: a pressão que não para
O câmbio projetado para o fim de 2024 não se moveu de R$ 5,20, mas a trajetória adiante mostra depreciação gradual: R$ 5,28 em 2025, R$ 5,30 em 2026 e R$ 5,35 em 2027. Cada centavo a mais no dólar empurra combustíveis e insumos industriais para cima.
Nos preços administrados — energia elétrica, combustíveis, tarifas públicas —, a estimativa para 2024 subiu de 4,61% para 4,63%. Parece pouco, mas esses itens têm peso relevante no IPCA e costumam ser rígidos para baixo.
Cenário mensal: setembro quente, alívio lento
O Focus detalha os próximos meses: IPCA de 0,56% em setembro, 0,33% em outubro e 0,35% em novembro. A inflação acumulada em 12 meses subiu de 4,62% para 4,65%, reforçando a narrativa de que o processo desinflacionário estancou.
Esses números mensais são a bússola do Copom. Se setembro confirmar 0,56%, a pressão por manutenção da Selic em 13,75% na reunião de novembro ganha força, adiando o início do corte para 2025.
Projeções para 2025 e além: pouso suave ou estagnação?
Para o ano que vem, o quadro segue desafiador. IPCA projetado em 4,31% (acima do centro da meta de 3%), PIB em 1,41% — terceira redução semanal — e Selic a 12%. O crescimento potencial da economia brasileira segue sendo debatido, mas o mercado já precifica expansão modesta por anos.
Em 2026, o PIB esperado caiu de 1,87% para 1,83%. Apenas em 2029 a projeção atinge 2%, ainda aquém do necessário para reduzir o desemprego estrutural e melhorar a arrecadação sem aumento de carga tributária.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar os próximos Boletins Focus: a execução do arcabouço fiscal e seu impacto nas expectativas de dívida pública, a safra agrícola de 2025 (que alivia ou pressiona alimentos) e a política monetária dos EUA — se o Fed cortar juros mais devagar, o dólar sobe e a Selic brasileira demora a cair.
Enquanto isso, empresários e investidores devem trabalhar com cenário de custo de capital alto até meados de 2025. Revisar planejamento de capex, alongar dívidas e proteger margens contra repasse cambial deixou de ser opção para virar necessidade.
