O dólar iniciou a semana em alta, impulsionado pela escalada do petróleo e pela expectativa de uma nova pesquisa eleitoral que pode redefinir o risco Brasil. A moeda americana ganhava 0,15% por volta das 9h20, cotada a R$ 5,192, enquanto o índice DXY avançava 0,14% no exterior. O que os investidores ainda não precificaram totalmente é o impacto duplo da inflação doméstica surpreendente e da geopolítica no Oriente Médio sobre os juros futuros.
O choque externo: petróleo acima de US$ 100 e Treasuries no pico
A commodity voltou a subir após recuar 1,90% na sexta-feira (25), fechando a US$ 104. O estopim foi a retórica do Irã: o presidente Masoud Pezeshkian colocou nas mãos dos EUA o fim do conflito, enquanto Teerã propôs um plano de sete dias para cessar hostilidades e reabrir o Estreito de Hormuz.
Esse cenário mantém o prêmio de risco energético elevado. A consequência direta apareceu nos Treasuries: o rendimento do título de 10 anos tocou 5,195% (máxima desde 2007) e o de 30 anos foi a 5,479% (topo desde 2004). Juros altos por mais tempo nos EUA fortalecem o dólar globalmente e comprimem ativos de risco.
IPCA-15 de setembro: a armadilha dos “fatores temporários”
No front interno, o dado que muda a narrativa do Banco Central saiu na sexta. O IPCA-15 acelerou 0,70% em setembro, maior alta para o mês desde 2021, superando o teto das projeções (0,66%) e a mediana (0,55%). Em agosto, o índice havia caído 0,40%.
A virada não foi surpresa para quem acompanhava a composição, mas a magnitude assusta. Três pilares explicam o salto:
- Energia: fim do bônus de Itaipu removeu o desconto artificial na conta de luz;
- Alimentação: fim da deflação no grupo, com volatilidade forte em itens in natura (batata e tomate lideram os vai-e-vens);
- Passagens aéreas: salto de quase 10% em setembro após queda de 13% em agosto.
Para Christian Meduna (BV), a alimentação volta a pressionar. Júlio Barros (Daycoval) resume o dilema: os núcleos de inflação seguem elevados e subiram na comparação anual. A aposta majoritária agora é manutenção da Selic na reunião do Copom de 3 e 4 de novembro.
Bolsa: Petrobras pesa, Azzas dispara em aposta de reestruturação
O Ibovespa fechou a sexta em queda de 0,26%, aos 183.476 pontos, arrastado pela Petrobras (-2,57%, a R$ 47,99), sensível ao petróleo. No polo oposto, Azzas saltou 12,96%.
O gatilho foi a reorganização societária anunciada em setembro: separação de Arezzo&Co e Soma em duas listadas, mais estrutura própria para Farm Rio. Gabriel Magno (AW Capital) vê a ação negociada a preços descontados e calcula que uma eventual transação envolvendo a Farm Rio poderia render dividendo extraordinário equivalente a 50% do preço atual do papel.
Risco político: Datafolha mostra Lula à frente, mas empate técnico no 2º turno
Enquanto o mercado digere inflação e juros, a corrida de 2026 já pesa nos modelos. A última Datafolha aponta Lula (PT) com 40% no primeiro turno contra 36% de Flávio Bolsonaro (PL). No segundo turno, empate técnico: 47% a 45%, dentro da margem de erro de dois pontos.
O detalhe relevante: a distância no primeiro turno voltou a quatro pontos, interrompendo a trajetória de aproximação do senador fluminense, que havia reduzido a gap de 10 para 3 pontos em quatro meses. A nova pesquisa Quaest, esperada para hoje, trará a repercussão da proibição das bets — variável nova na equação fiscal e eleitoral.
Wall Street ignora juros e sobe com IA; o radar da semana
Nos EUA, o otimismo com inteligência artificial sobrepôs-se ao medo dos juros. S&P 500 (+0,51%), Dow Jones (+0,93%) e Nasdaq (+0,48%) fecharam em alta, puxados por Microsoft e pares de tecnologia.
O que observar daqui para frente
A semana será definida pela interação de três vetores: a evolução do conflito no Estreito de Hormuz (e seu teto para o petróleo), a leitura do IPCA cheio de setembro (próxima sexta) e a pesquisa Quaest sobre o veto às apostas. Se o petróleo sustentar acima de US$ 105 e o IPCA vier acima de 0,50%, a curva de juros precificará alta da Selic — e o dólar testará R$ 5,30 com folga. Mantenha posições hedgeadas e liquidez para entrar em leilões de NTN-B se a inclinação da curva steepenar.
