O Brasil atingiu 103,5 milhões de pessoas ocupadas e a menor taxa de desemprego da série histórica, 5,3%. Ao mesmo tempo, a inadimplência bancária disparou para 5%, o maior nível desde 2011. Como duas realidades opostas convivem no mesmo mês?
A resposta não está no otimismo, mas no defasagem brutal dos juros altos. O mercado de trabalho ainda reflete o crescimento passado, enquanto o bolso do consumidor já sente o peso do crédito caro há meses.
Os números que não se conversam
Divulgados nesta terça-feira (29) pelo IBGE e pelo Banco Central, os dados do trimestre encerrado em agosto expõem uma fratura exposta na economia. De um lado, a força do emprego; do outro, a incapacidade de honrar dívidas.
- Desemprego: 5,3% (menor patamar da série histórica da PNAD Contínua).
- População ocupada: 103,5 milhões (recorde absoluto).
- Inadimplência (pessoa física + jurídica): 5% em agosto (maior desde março de 2011).
- Inadimplência apenas pessoas físicas: 5,6% no mesmo período.
Essa combinação é rara. Geralmente, emprego em alta puxa a inadimplência para baixo. O fato de ambos subirem juntos sinaliza que a renda gerada não está acompanhando o custo do endividamento acumulado.
O efeito direto no caixa das empresas
Para o empresário, o cenário exige leitura fria. O consumidor está empregado, mas o salário real perdeu poder de compra frente às parcelas do cartão, financiamento de veículos e crédito consignado.
O economista Leonardo Costa, da ASA Investimentos, aponta que a massa salarial efetiva vem caindo em termos reais de forma sequencial. Isso significa menos dinheiro sobrando no final do mês para consumo discricionário — justamente o motor do varejo e de serviços.
Além disso, o ritmo de abertura de vagas perdeu fôlego. O “boom” de contratações que sustentava a expansão da renda agregada está arrefecendo, antecipando um 2025 mais desafiador para a geração de demanda.
Por que o calote subiu com todo mundo empregado?
A explicação técnica tem nome: defasagem da política monetária. A Selic permaneceu em dois dígitos por longos 18 meses, só iniciando cortes em agosto de 2023. O crédito concedido nesse período carrega taxas elevadas que só agora vencem nos contratos atuais.
Ou seja, o trabalhador contratado hoje paga juros de ontem. Enquanto a taxa básica não cair o suficiente para baratear o rolagem das dívidas, a inadimplência tende a resistir em patamares altos, mesmo com mercado de trabalho aquecido.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam os próximos passos: a trajetória da massa salarial real, a velocidade de corte da Selic nas próximas reuniões do Copom e o comportamento do varejo no fim de ano.
Se a renda real parar de cair e os juros caírem mais rápido que o esperado, o paradoxo se dissolve a favor do consumo. Caso contrário, o recorde de emprego de hoje vira apenas a foto de um filme que já começou a mudar de gênero.
