A Argentina fechou o primeiro semestre com superávit fiscal primário depois de anos no vermelho, inflação em queda livre e reservas internacionais recompostas. No papel, o plano de Javier Milei funciona; na rua, o consumo desaba e a pobreza atinge níveis históricos.
Essa dicotomia cria um cenário único para quem opera na região: indicadores macroeconômicos saudáveis convivem com uma microeconomia em recessão profunda. Até quando essa dissonância se sustenta?
O ajuste que o mercado aplaudiu
O governo cumpriu a promessa de “motosserra” no Estado. Subsídios de energia e transporte foram cortados drasticamente, obras públicas paralisadas e a máquina administrativa enxugada via demissões e não reposição de vagas.
O resultado fiscal impressiona: as contas públicas registraram superávit primário consecutivo, algo raro na história recente do país. Para investidores, o sinal é claro — o risco de default soberano caiu e os títulos argentinos voltaram a atrair capital externo.
Mas a âncora cambial, mantida com crawling peg de 2% ao mês, começa a mostrar o custo de competitividade. Exportadores reclamam de defasagem e o setor industrial alerta para perda de mercado.
O efeito dominó nos pequenos negócios
Se o balanço do Tesouro melhora, o caixa das empresas seca. A combinação de juros reais altos, crédito caro e renda real achatada derrubou as vendas no varejo e na construção civil.
- Consumo de massa: queda de dois dígitos no acumulado do ano.
- Indústria: ociosidade elevada e demissões em cadeia.
- Serviços: única atividade com certa resiliência, puxada por turismo receptivo.
Para o empresário brasileiro que exporta para o vizinho ou tem operação local, o recado é direto: o poder de compra do consumidor argentino encolheu mais rápido que a inflação oficial.
Por que a pobreza subiu mesmo com inflação caindo?
A desindexação automática de salários e benefícios sociais, somada ao choque tarifário inicial, transferiu renda do trabalho para o capital no curto prazo. Índices oficiais mostram que a taxa de pobreza superou a casa dos 50% no primeiro trimestre — patamar não visto desde a crise de 2001.
A queda da inflação mensal para dígitos únicos ainda não repõe o poder de compra perdido na largada. Reais ajustados mostram que o salário mínimo real perdeu cerca de 30% de valor em poucos meses.
Esse é o nó que o governo precisa desatar antes das legislativas de 2025. Sem recuperação de renda, a base política do ajuste se fragiliza.
Câmbio, reservas e o fantasma do “cepo”
O Banco Central comprou divisas de forma consistente, recompondo reservas líquidas que eram negativas. O “blend” de exportação (80% oficial, 20% financeiro) ajudou a entrada de dólares, mas mantém o dólar financeiro pressionado.
A grande incógnita é a saída do cepo cambial. Milei condiciona a abertura total a três pilares: inflação convergindo para 2% ao mês, reservas líquidas positivas e aprovação de leis estruturais no Congresso.
Dois pilares avançam; o terceiro depende de negociação política num Parlamento fragmentado. Qualquer ruído legislativo dispara o risco-país e amplia o spread entre dólar oficial e financeiro.
O que observar daqui para frente
O segundo semestre será o teste de fogo da “fase 2” do plano: estabilização com crescimento. Três variáveis ditam o ritmo:
- Velocidade da recomposição salarial real frente à inflação residual.
- Capacidade do governo de aprovar a reforma trabalhista e previdenciária.
- Comportamento do agro na safra 2024/25 — motor único de divisas genuínas.
Para o tomador de decisão, a leitura tática é clara: a Argentina macro está “investível” novamente, mas a micro exige seletividade extrema. Setores dolarizados (energia, mineração, agronegócio) seguem blindados; varejo e construção dependem de uma virada de ciclo que ainda não tem data marcada.
