Economia

Você não vai acreditar no custo real do “sucesso” de Milei

Javier Milei discursa enquanto gráficos mostram superávit fiscal e inflação em queda, contrastando com fila de argentinos em situação de vulnerabilidade
O "milagre" econômico de Milei nas planilhas versus a realidade dura nas ruas argentinas

A Argentina fechou o primeiro ano da gestão Javier Milei com superávit fiscal primário e inflação mensal em um dígito, marcas que o mercado celebrava como impossíveis há doze meses. Mas a comemoração nos escritórios de Buenos Aires e Nova York esconde um contraponto brutal nas ruas. O ajuste ortodoxo funcionou na planilha, mas quebrou a dinâmica social de um jeito que nenhum relatório de risco consegue precificar totalmente.

O segredo que poucos analistas destacam nos reports matinais é a velocidade da deterioração do poder de compra. Entender essa assimetria — macroeconomia saneada versus microeconomia destroçada — define se o seu portfólio captura a recuperação ou pega a queda do consumo.

O ajuste que funcionou no papel

Os números oficiais mostram um choque de credibilidade. O setor público consolidado registrou superávit primário de 1,8% do PIB em 2024, o primeiro resultado positivo desde 2010. A inflação mensal, que beirava 25% em dezembro de 2023, desacelerou para 2,7% em outubro de 2024. O risco-país, termômetro da confiança externa, despencou de 1.900 para a casa dos 800 pontos básicos.

Para o investidor de renda fixa soberana, o cenário é de “compra obrigatória”. Títulos em dólar (Globais 2030/2035/2041) valorizaram entre 60% e 90% no ano. A entrada no índice de mercados emergentes do J.P. Morgan, prevista para 2025, promete fluxo passivo adicional.

A conta que chegou na mesa do argentino

Enquanto o spread cai, a pobreza sobe. Dados do INDEC e de centros de estudos privados convergem: a taxa de pobreza saltou de 41,7% (segundo semestre de 2023) para acima de 52% no primeiro trimestre de 2024. A indigência dobrou, atingindo cerca de 18% da população.

O mecanismo é simples e cruel: a licença de preços (fim de controles), a desvalorização cambial inicial de 54% e o corte de subsídios de energia e transporte transferiram renda do trabalho para o capital instantaneamente. O salário real médio perdeu poder de compra em 10 dos 12 meses do ano.

  • Consumo de massa: Vendas em supermercados e shoppings caíram dois dígitos consecutivos.
  • Construção e Indústria: Atividade recuou acima de 15% no acumulado até setembro.
  • Endividamento familiar: Atrasos em cartão de crédito e cheque especial bateram recordes históricos.

Mas o efeito mais relevante aparece na capacidade de reação política.

O limite da “motosserra” e o risco de 2025

Milei governou até aqui por decretos e vetos, sustentado por um “pacto de governabilidade” frágil com governadores e o Congresso. A aprovação popular, embora resiliente (gira em torno de 45-48%), começa a dar sinais de fadiga nas classes C e D.

O calendário de 2025 impõe três testes decisivos:

  1. Acordo com o FMI: O programa atual vence. Novo desembolso exige flexibilização do cepo cambial — movimento que pode reacender a inflação se mal calibrado.
  2. Eleições legislativas de outubro: Perder maioria no Congresso travaria as reformas estruturais (trabalhista, previdenciária) que o mercado precifica no preço dos ativos.
  3. Recuperação em “V” ou “L”? O FMI projeta crescimento de 5% para 2025. O setor privado aposta em 3,5%. A diferença é a volta do emprego formal.

O que observar daqui para frente

Não existe “almoço grátis” na economia argentina. O superávit fiscal atual depende de receitas extraordinárias (blanqueo de capitais) e postergação de pagamentos (obras públicas, dívida com importadores). A qualidade do ajuste será testada quando a receita cíclica cair e a pressão por recomposição salarial explodir.

Para o tomador de decisão: posicione-se na curva de juros reais argentinos (LECER/TESCER) para capturar o prêmio de desinflação, mas mantenha hedge cambial ativo até a definição do regime de câmbio pós-FMI. A assimetria de risco mudou: o downside não é mais default, é instabilidade social que paralisa as reformas. Quem ignora a rua, paga caro na tela.